Wilson Bueno é autor de títulos literários em várias vertentes e gêneros. Sua obra de maior impacto é a novela Mar Paraguayo (editora Iluminuras, São Paulo), publicada na Argentina, Chile, México, Cuba, Estados Unidos, e objeto de teses e seminários, por sua inventiva construção ( portunhol e guarani). É também autor de mais 11 livros de ficção, entre eles “A Copista de Kafka”, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e Prêmio APCA de Literatura – Associação Paulista dos Críticos de Arte em 2008. Criador e editor, por oito anos, do premiado jornal Nicolau (1987-1994), considerado um dos mais importantes tablóides culturais brasileiros. É colaborador regular do Trópico (www.uol.com.br/tropico), site de arte e cultura do UOL, e do suplemento “Cultura” do jornal O Estado de São Paulo.
MEMAI – Quando você foi editor do jornal de cultura “Nicolau”, aliás, criado por você, desde o nome, entre os anos 80 e 90, em pelo menos 1/3 das edições estavam pautadas matérias sobre cultura japonesa. Isto se devia a sua paixão pela cultura japonesa ou refletia uma tendência da época, de cultuar o zen e as artes clássicas japonesas?
WILSON BUENO – Desde cedo a minha paixão pela cultura japonesa foi muito marcada e marcante. Não só para mim, mas também para grande parte da geração a que pertenço, herdeira dos beatniks. Nas viagens lisérgicas do meu tempo buscávamos o zen, aquela coisa “essencial” das artes clássicas do Japão. Gostávamos de interpretar o mundo a partir do aparente nonsense dos koans búdicos… Era, digamos, a nossa filosofia, em oposição ao “catolicismo” feudal do Ocidente, com tudo o que vinha nele de moralismos congelados, estanques. Eu, em particular, sou um lewiscarrolliano por excelência, um discípulo aplicado igualmente de Edward Lear, hoje aliás tão meticulosamente estudado no Brasil por Dirce Waltrick do Amarante. E não poderia ser de outro modo num jornal que tinha à frente das diversas equipes que por ele passaram, este locutor que vos fala, não é mesmo?
MEMAI – Quando você ouviu falar de poesia japonesa pela primeira vez ? Teve algum envolvimento com a comunidade nipo-brasileira no interior do Paraná ? Qual a sua primeira imagem dos nihonjin (japoneses) ?
BUENO - Os nihonjin, por outras vias, estão presentes desde sempre em minha vida. No sertão profundo, onde nasci, na aldeia Água do Salto, a 50 kms de Jaguapitã, plantavam café e algodão. Em Curitiba, para onde vim com 7 anos, estudei com muitos deles – do antigo primário aos igualmente antigos ginásio e científico. Admirava-os porque eram sobretudo “ordeiros”, me identificava com aquela dedicação deles aos estudos. Como era meu vício ser o primeiro aluno da classe, era muito mais fácil para mim estreitar laços de amizade com os meninos japoneses do que com os demais… E depois tinha que, sobretudo em Curitiba, éramos todos migrantes – fossem os japoneses ou os “sertanejos” do Norte pioneiro (norte do estado do Paraná), os filhos de polacos ou de ucranianos… Ah, e também os descendentes dos árabes… Quando das primeiras “luzes” literárias, logo de cara as coisas do Japão me chamaram a atenção, mesmo porque, como já disse, a minha geração as cultuava através do haicai, do tanka, da ikebana ou das lutas marciais… Do kendo ao aikido…
MEMAI- O haiku, no Brasil chamado haicai, se tornou uma forma poética popular. Você fugiu desta forma, preferindo criar poemas em tankas. Por quê ?
BUENO – Porque sempre me moveu e me move o desejo de fazer diferente, o que até pode sugerir uma coisa pernóstica, mas é que, já repeti isso em várias ocasiões, não sei ser de outro modo. Não manejo, não consigo manejar aquilo que todo mundo, em dado momento, está fazendo. Aí, como conciliar a paixão pelos versos japoneses senão pela via do tanka, embora eu seja autor de dezenas de haicais? E depois tem que me impus um desafio: o tanka, sabemos, carrega consigo o chamado “olho” do haicai e ainda pede uma “conclusão” em dois versos finais. Sempre, claro, na rigorosa métrica que inventamos para ele, para transfigurá-lo, creio. Uma “matemática” que me seduz, – 5/7/5 ( o haicai!) e 7/7 a dita “conclusão”, uma sutil “moral” da história… Como em “Magrura” (Pequeno Tratado de Brinquedos): “minha meia-irmã/ chegou de Piracicaba/ ainda mais magra/ corremos em seu socorro/ de magra voou pro morro”. A métrica, inventada aqui, também é um exercício de humildade – você se vê obrigado a desprezar o que julga um achado precioso porque este tal de “precioso” o poema só pode acolhê-lo se em rigorosas e calculadas sílabas poéticas… Temos que recusar, jogar literalmente no lixo o que consideramos grandes “insights”, porque não cabem no metro do poema, você me entende?
MEMAI – No “Pequeno Tratado…” há referências a Bashô, Issa, Buda. Quais são seus poetas japoneses preferidos ? E os poetas que fazem tanka ?
BUENO – Kobaiashi Issa me parece insuperável. Só pra lembrar, de cor, uma autêntica jóia, eterna: “Ao Fuji sobes/ Pequeno caracol/ – Mas sobes”. Acho a nossa Helena Kolody (1912 – 2004 ) , a minha mais decisiva influência e estímulo para ir ao tanka como quem vai com gula a um pote de mel. A saudosa Helena tem tankas lindíssimos, de uma delicadeza que era dela sua maior marca. E, claro, alguns clássicos, só encontráveis infelizmente em inglês, ou espanhol, reunidos numa antologia chamada Kojiki e que conta as origens do Japão e que, curiosamente foi escrito em chinês, me ensinaram muito… Aprendi, aprendo e creio que continuarei aprendendo com a leitura dos fragmentos encontráveis por aí desse livro fantástico.
MEMAI – Alguns poetas que moravam em Curitiba, como Helena Kolody, Paulo Leminski e Alice Ruiz cultivaram o haicai como forma poética. Alguma vez você chegou a conversar sobre poesia e arte japonesa com eles ? E com Claudio Seto, que morreu recentemente e para quem você escreveu uma crônica, tinha conversas sobre poesia e filosofia ?
BUENO – Sim, não só sobre o haicai, mas também sobre as inúmeras manifestações que fazem do Japão uma coisa singularíssima na história da arte humana… Das artes da guerra à delicadeza da ikebana; do haicai à renga; do tanka ao zen. Sabendo, claro, que no Oriente todos estas coisas se misturam e se transfundem senão transcendem… Claudio Seto, meu grande amigo, ilustrador de inúmeros textos meus, não falava… Só criava em seu silêncio búdico… Era um ser de uma beleza incalculável, mesmo em seus monossílabos… Monossílabos que sorriam…
MEMAI – No Japão o haiku é uma forma poética não-subjetiva, que procura eliminar o “eu”, como num exercício zen. O poema clássico não tem rima nem titulo. Quando esta forma poética é trazida para o Ocidente, estas regras são subvertidas: aparecem titulo, rimas e subjetividade. Seria uma adaptação da poesia japonesa no Brasil, um país de tradição trovadoresca?
BUENO - Sem dúvida, a adaptação da poesia japonesa ao Brasil é justamente o que, me parece, enriquece, ainda mais uma tradição clássica. Os brasileiros somos useiros e vezeiros em reinventar as artes alheias… Veja com o futebol, o rude esporte bretão, o que fizemos… Virou uma coisa transcendente o que antes era só um esporte tosco… Não digo que o poema clássico, sem rima nem título, como é praticado pelos orientais, seja tosco, pelo contrário. Chamo atenção é para essa capacidade brasileira de transfigurar as coisas… Há um tanka em Pequeno Tratado de Brinquedos em que tento focar essa dissolução do “eu”… Chama-se justamente “Anônimo”. Se você me permite, lembro de cor: “eu e a minha mestra/ saímos caçar cepilhos/ só colhemos grilo/ tarde voltamos com fome/ jantamos os nossos nomes”.
MEMAI – Alguns dos conceitos-base da arte japonesa são a harmonia da forma e a síntese na linguagem. Quando você compõe seus tankas, pensa em alguma regra ou conceito ?
BUENO – Não, só penso em fazer o melhor e honrar, de alguma forma, a grande tradição, mesmo que disturbando-a, ou por isso mesmo…
MEMAI – Que tipo de repercussão tiveram seus livros de tankas ?
BUENO – Enorme. Há leitores apaixonados que me passam e-mails, absolutamente encantados com os meus tankas. Em Mato Grosso do Sul, alguns formandos, do maravilhoso curso de Letras que tem lá a UFMS, estão realizando teses de mestrado exclusivamente em torno dos meus únicos livros de tankas – o Pequeno Tratado… e Pincel de Kyoto… Justamente descendentes de japoneses, o que é interessantíssimo e me honra muito, acredite. E o Pequeno Tratado… já está em segunda edição, o que é raro para um livro de poesia, no Brasil, ainda mais de tankas, você não acha?
MEMAI – Depois de “Pequeno Tratado de Brinquedos” e “Pincel de Kyoto”, você pretende lançar mais algum livro de tankas ? É uma forma poética na qual você compõe com regularidade ?
BUENO – Sempre digo, e repito, que estes serão meus únicos livros de poesia, estrito senso. Sou basicamente um ficcionista, com inúmeros títulos nessa área. Embora tenha, inéditas, e guardadas a sete chaves, mais duas reuniões de poesia – o “13” ( sonetos eróticos, que pretendo sejam póstumos…) e o “35. Poemas de Amor”, barroquíssimos, que sinceramente não sei quando publicarei… Cinco desses últimos foram publicados pelo site de arte e cultura do UOL, o Trópico ( www.uol.com.br/tropico ). Tenho também, e inédito, um livro com mais de 50 tankas chamado “Casa do Poeta”. Hesito muito em publicar poesia. Quero crer que sou um ficcionista, e não mais que isso…
MEMAI – E por falar em ficção, que escritores japoneses contemporâneos você lê?
BUENO – Sou apaixonado pela literatura moderna do Japão. Tenho um pequeno ensaio sobre Yasunari Kawabata, um dos meus ícones, e sempre retorno a este autêntico titã das letras contemporâneas que é Yukio Mishima… A prosa japonesa contemporânea é de um vigor extraordinário… Quem quiser escrever ficção, em qualquer língua, tem que conhecer esses e outros autores, penso eu…
TANKAS
I
casa do poeta
folhas brancas no escritório
chá das cinco horas
da janela o cinamomo
conta estórias passam os anos
II
casa do poeta
silva a serra motriz
– uma nova mesa!
panelas, pratos de estanho
no retrato, o avô piscando
III
casa do poeta
de vez em quando uma lágrima
chove na vidraça
no céu o céu cor de cinza
saudades nunca não passam
IV
casa do poeta
desenho de passarinho
de Rogério Dias
três deles se escondem álacres
atrás de um bico-de-lacre!
V
casa do poeta
num canto a teia de aranha
fia ouro ao sol
o musical meio-dia
réstia de luz no varal
Do livro Casa do Poeta (inédito)



novembro 1st, 2009 → 5:02 pm @ Marilia Kubota
0