PALCO | Do Kung Fu à Contracultura

novembro 1st, 20094:38 pm @ Rodrigo Wolff Apolloni

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Um ensaio sobre a flauta shakuhachi (尺八) poderia partir de ou abranger aspectos tão complexos quanto a História, as relações entre a música e a religião no Japão ou a diversidade de estilos e notações. A esse respeito, porém, há trabalhos muito interessantes, acessíveis a pessoas que desejem saber mais. Obras, por exemplo, como “Shakuhachi – A Manual for Learning”, de Nicolas Yomei Blasdel, ou o portal brasileiro de internet “Shakuhachi Brasil & América Latina” (www.shakuchiba.ning.com). Diante dessa disponibilidade de informações, peço licença para tratar de outro assunto que, acredito, pode ser tão interessante quanto descobrir, por exemplo, que a notável flauta nipônica pode ter suas raízes não na China, mas na Índia ou mesmo no Egito. Gostaria de abordar minha própria experiência com o shakuhachi.

O que leva um não-nipodescendente a buscar aprender um instrumento cujo aprendizado é considerado “complexo” por muita gente no próprio Japão? Eu poderia, perfeitamente, ser um desses casos “estranhos”, de indivíduos que resolvem mergulhar em um aspecto inusitado de uma cultura alheia e retornar de lá com um cocar na cabeça ou como ícone do interculturalismo. Observando o cenário brasileiro, porém, verifico que, como eu, existem outros fascinados pelo shakuhachi. Não muitos, mas certamente muito apaixonados pela arte. Criaturas como Shen Ribeiro e Matheus Ferreira, mestres de São Paulo, Sérgio Vinícius Monfernatti, excepcional player de Curitiba ou o gaúcho Henrique Elias Sulzbacher, provavelmente o mais entusiasmado tocador de shakuhachi que já conheci. Cada qual devidamente agarrado à sua flauta, soprando com empenho e sonhando em ganhar mundos de conhecimento tão amplos quanto o alcance de suas notas.

Retorno à egocêntrica questão que alimenta este artigo. Se bem me lembro, minha mais antiga experiência com a flauta de raiz de bambu se deu ainda na infância, ao assistir a série “Cosmos”, de Carl Sagan. Em um dos episódios, no qual o apresentador falava sobre seleção das espécies, ele contou a história dos caranguejos heikegani (平家蟹), da região de Danno Ura (uma porção interior de mar no Japão), cuja carapaça se assemelha ao rosto de um samurai feroz. Observou que, originalmente, tal configuração de casca provavelmente era exceção, tornada regra por força de uma crença local que associava os “caranguejos-samurais” às almas dos guerreiros (os bushi do clã Heike) que ali se mataram por afogamento após uma derrota no dia 24 de abril de 1185. Compartilhando a dor – e, certamente, receando despertar a fúria dos combatentes mortos -, os pescadores passaram a devolver ao mar todos os espécimes “diferentes”, acabando por moldar e substituir, por um processo de “seleção cultural”, a espécie original de carapaça lisa.

Se, per se, a história já era das mais interessantes, ficou ainda mais atraente ao chegar acompanhada pelas notas cavas de um shakuhachi tocado pelo grande mestre Goro Yamaguchi. Não sei, de fato, por que, mas a música – “Sokaku-Reibo” (巣鶴鈴慕) ou “Tsuru-no-Sugomori” (鶴の巣籠, na Escola Kinko) – simplesmente hipnotizou aquele guri de dez ou onze anos. Tanto, que ficou gravada no espírito e acabou redescoberta anos depois, durante uma seção de compra de CDs de música étnica na saudosa “801”, loja que Horácio Tomizawa de Bonis mantinha no Setor Histórico de Curitiba. Fato é que, depois desse dia, o tema das cegonhas no ninho e a arte de Goro Yamaguchi passaram a fazer parte de minha “trilha sonora pessoal”.

O shakuhachi, porém, não tem apenas um apelo sonoro. Visualmente, a flauta de sete orifícios construída com bambu madaké encarna tudo o que um ocidental poderia conceber sobre a nobreza e a “arcanidade” das culturas do Oriente. Wabi-sabi (侘寂) em estado puro, mesmo para quem sequer imagina o que isso significa. Foi essa, ao menos, minha percepção pessoal ao ver uma dessas flautas pela primeira vez, em um inusitado ambiente de prática de Kung-Fu. O ano era 1985, e a história do “shakuhachi chinês” apenas ilustra o quanto as coisas podem ser coloridas. A flauta, enfim, pertencia ao mestre Lee Chung Deh, herdada de um pai que, durante a Segunda Guerra Mundial, em uma Taiwan invadida, a teria recebido em uma aposta com um oficial do Exército Imperial Japonês. “Uau!”, sonhou o garoto, como sonha até hoje o homem ao pensar nos trajetos que ligam as pessoas às coisas na vida. O fato é que Kwai Chang Caine, o célebre monge Shaolin do seriado de tevê “Kung-Fu” (inspirador de nove entre dez praticantes de Kung-Fu dos Anos 70 e 80) tocava flauta entre uma sessão e outra de filosófica pancadaria. Assim, no final de minhas primeiras aulas de arte marcial chinesa, passei a tentar tocar a flauta, percebendo, de cara (e ficando instigado por isso), a tremenda dificuldade de emitir sons.

Meu contato mais recente com o instrumento aconteceu há coisa de quatro anos, quando conheci minha esposa, Lina Saheki. Em um de nossos primeiros contatos, pela internet – ela morava em Vitória e eu, em Curitiba -, comentei que gostava muito de shakuhachi, e obtive como inesperada resposta a informação de que ela possuía uma flauta em casa, silente há muito por falta de quem a tocasse. A peça pertencera a Inomata Chüshiroo, seu bisavô materno, e chegara ao Brasil em 1933, na bagagem de imigrante. Lina comentou que, se eu conseguisse tirar algum som, se quisesse tentar e me esforçasse para tanto (santo Yamato Damashii!), a flauta seria minha. Alguns dias depois, recebi a peça em casa, a enviei para restauro por um dos maiores especialistas do mundo – o americano Monty Levenson, um herdeiro da Contracultura que trocou Jimmy Hendrix pelo madake – e, em pouco tempo, eu estava a “brigar” pela música com um grupo de músicos e cantores idosos japoneses de Minyo (música folclórica japonesa) em Curitiba. Hoje, posso dizer que, na companhia de amigos como Sérgio Vinícius Monfernatti, emito alguns sons distantes da beleza, mas, certamente não desprovidos de um santo desejo de melhorar.

Ao conhecer tal série de pessoas e circunstâncias – do Kung-Fu à contracultura, passando por imigrantes japoneses, internet, seriados de tevê e guerreiros do Japão pré-feudal -, é possível que você ache essa história fantástica. Fantástica, com efeito, não é minha própria experiência; como ela, evidentemente, há muitas outras, cada qual com uma configuração que lhe confere cor e essência. Fantástico é perceber que, em uma aparente sucessão de acasos, muitas e boas coisas podem acontecer. O maior de todos os performers de shakuhachi, desconfio, ainda está por nascer. Quem sabe ele não está apenas esperando por um jornal, chegado em momento incomum (ou totalmente previsível), para descobrir isso? Notável, enfim, é a vida – com suas múltiplas possibilidades.

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