MIL GARÇAS PARA O SAMURAI DE CURITIBA

novembro 1st, 20095:13 pm @ Célio Yano

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MIL GARÇAS PARA O SAMURAI DE CURITIBA

Só de ouvir seu nome, alguns dirão que foi um grande artista. Os que conhecem minimamente seu trabalho, entretanto, discordarão: “Claudio Seto não foi um grande artista”, dirão. “Foi vários”. E se há críticas controversas a respeito de seu trabalho como escritor, poeta, jornalista, fotógrafo ou artista plástico, nada disso invalida a afirmação. Seu talento como quadrinista e a importância que teve no âmbito da nona arte fazem seu legado equivaler ao de muitos.

De um início de carreira sem grandes pretensões, em poucos anos tornou-se reconhecido como o pioneiro do gênero mangá no Brasil e foi capaz de desafiar a égide do regime militar como um dos expoentes dos quadrinhos eróticos, além de se antecipar a tendências mundiais na área. O homem Seto nasceu em 1944, na cidade de Guaiçara, interior de São Paulo. O artista, por sua vez, roubou a cena 23 anos depois, com o lançamento do primeiro gibi, “O Samurai”, pela editora Edrel.

Em um cenário dominado pela febre de publicações como Mandrake, Super-Homem e Tio Patinhas, seu quadrinho de lançamento destoava nas bancas nos idos de 1967. Nas histórias de Seto não havia moral ou heróis, mas sangue e violência promovida por um código de honra totalmente à parte da realidade brasileira. Não é preciso dizer que foi sucesso imediato.

Outra criação do artista, também de 1967, no entanto, é que se tornou best seller da editora: a Maria Erótica – personagem que deliciava os adolescentes da época e que entrou para a história dos quadrinhos adultos brasileiros. Nada mau para Seto, que anos antes o máximo que conseguia era publicar seus desenhos em uma revista de anúncios publicitários das lojas Arapuã da cidade paulista de Lins.

A influência, nunca escondeu, tomou dos mangakás Mizuno Hideko e Shirato Sanpei, seguidores do “deus do mangá” Osamu Tezuka (1928-1989). Chegou inclusive a conhecer Tezuka, durante os cinco anos em que viveu em Kyushu, no Japão, embora tenha começado a desenhar profissionalmente apenas após voltar ao Brasil. Em 1967, depois de pintar portas de caminhões acabou conseguindo uma oportunidade na Edrel.

Trabalhou até encerramento das atividades da editora, que ocorreu em 1973. Dois anos mais tarde, em julho de 1975, viajou para Curitiba para passar uns dias. Passaria pela capital paranaense apenas para buscar uma espada pertencente a seu tio-avô cujo paradeiro fora desconhecido ao longo de 30 anos e que – descobrira posteriormente – houvera ficado guardada por um senhor no Paraná. Quando entregou a espada, o portador teria instruído para que não sacasse o objeto, pois caso não o utilizasse para matar alguém, algo inesperado poderia acontecer. Na manhã seguinte, após levantar a arma, deparou-se, pela janela do hotel, com uma Curitiba coberta de neve. O visitante talvez nem soubesse, mas era a primeira vez que nevava na cidade em 47 anos. A alegria dos moradores com o fenômeno encantou Seto, que decidiu que era ali que viveria a partir de então.

Ninguém se atreve a contestá-lo, mas poucos sabem o que há de verdade e de ficção neste e em outros de seus relatos. Chegou a anunciar, certa vez, que, de fato, não era um. Disse que tinha um irmão gêmeo, univitelino. Seriam idênticos, de tal forma que pouquíssimos saberiam diferenciá-los, o que permitiria a um ocupar o lugar do outro sem que qualquer pessoa se desse conta. De prosa em prosa, foi capaz de transcender o espaço limitado do papel, invertendo a lógica da produção artística, para levar à história a realidade fabulosa dos quadrinhos.

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Curitiba

Fato é que, em Curitiba, a partir de 1977, passou a trabalhar na Grafipar, editora fundada por Faruk El Khatib. Lá deu seqüência a seu legado, com a produção de desenhos e argumentos para revistas como Eros, Proton, Neuros e Perícia, que traziam histórias de ficção científica, terror e crimes, com pitadas de erotismo e críticas sociais. Em 1980, o departamento de arte da editora passou a ser comandado por Seto, que, ainda que em posição de liderança, preferia manter a conversação, como sempre fez, dominada por monossílabos. Nomes como Mozart Couto, Watson Portela, Rodval Matias, Gustavo Machado, Franco de Rosa, Flávio Colin e Fernando Bonini assinavam as publicações da Grafipar, que, por uma série de dificuldades financeiras, acabou encerrando as atividades em 1983.

Sem editora para publicar suas historietas, passou a dar aulas de desenho na Gibiteca de Curitiba no início da década de 1990 – conforme lembram seus alunos, sem pronunciar uma única palavra. Com uma coleção infindável de gibis na garagem de sua casa, recebia prazerosamente os aprendizes que queriam obter fontes de inspiração.

Até que em 1993 foi convidado pela prefeitura de Curitiba, à época administrada pelo arquiteto Jaime Lerner, a registrar em quadrinhos a história da capital paranaense, que naquele ano completava seu terceiro século de fundação. Ao cabo da produção da “História de Curitiba em Quadrinhos”, em parceria com a historiadora Cassiana Lacerda Carollo, deixou de vez de se dedicar à arte sequencial.

Obviamente não abandonou o desenho, o qual praticou ainda por meio de tirinhas e charges nos jornais Correio de Notícias, O Estado do Paraná e Tribuna do Paraná. Sempre ligado às raízes nipônicas, fazia questão de ilustrar todas as lendas japonesas que escrevia para o Jornal Nikkei – que depois veio a se chamar Planeta Zen – e para o livro que veio a publicar em 2008, na ocasião do centenário da imigração japonesa no Brasil.

No mês de julho do mesmo histórico ano, foi homenageado durante a cerimônia de entrega do 20º troféu HQ Mix, em São Paulo: a estatueta do prêmio, esculpida pelo artista Olintho Tahara, representava o personagem Samurai. A mesma figura, uma de suas mais célebres criações, rendeu o mais conhecido apelido de Seto – com consentimento ou não, o cidadão honorário da capital paranaense tomou para si, de uma vez, o título Samurai de Curitiba, assim mesmo, tal qual o de Vampiro ficou com o escritor Dalton Trevisan.

Morte

Morreu em conseqüência de um acidente vascular cerebral no dia 15 de novembro de 2008. Em meio ao mesmo silêncio com que fez parceria durante a carreira, despediu-se subitamente da vida, deixando esposa, três filhos e um dos mais importantes marcos para o universo brasileiro dos quadrinhos.

Os que acompanharam de longe dirão que Seto se decidiu pelo andar de cima quando viu cumprida sua missão – e se equivocarão. Seu trabalho, na verdade, não coube no perímetro da própria vida, de modo que, em túmulo, seguiu lançando obras. Vive atualmente neste e em centenas de milhares de textos, conversas e desenhos em que procura perpetuar seu legado, seja na área de quadrinhos, de pesquisa ou da difusão cultural. Vive como uma lenda, daquelas que ele mesmo contava.

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