O ESPÍRITO DO IDEOGRAMA

novembro 1st, 20094:50 pm @ Lina Saheki

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O ESPÍRITO DO IDEOGRAMA

Conta a tradição que a origem do zen-budismo tem como marco uma transmissão sem palavras conhecida, hoje, como “o Sermão da Flor”. Nessa história, o Buda histórico, Sidarta Gautama, teria se mantido por um longo período em silêncio, apenas contemplando uma flor, diante de uma assembléia de discípulos ávidos pelos seus ensinamentos. Momento no qual um deles, Mahakashyapa, irrompeu o silêncio com um riso ao compreender o sentido inexprimível da flor e da existência. Correspondendo ao riso, Buda teria dito:

Eu possuo o Tesouro do Correto Dharma e a Maravilhosa Mente de Nirvana (Shobogenzo Nehan Myoshin) e agora o transmito a você.”

Traduzido frequentemente como “transmissão de coração para coração”, “transmissão sem palavras” ou “transmissão de mente para mente”, o termo isshin denshin (一心伝心), tão amado pelos próprios japoneses, pode auxilliar as pessoas a compreender um pouco mais sobre como funciona a visão de mundo no Japão.

Nascido na China como pictograma que representava o coração físico e depois simplificado para facilitar a escrita, o ideograma shin ou kokoro () significa, a um só tempo, coração, mente e espírito. Assim, a moderna divisão/oposição que fazemos no Ocidente entre os conceitos de coração e mente – moderna, porque entre os romanos ele também sediava sentimentos, como corda – é superada por esse significante, cuja essência abarca, compreende e ultrapassa qualquer dualidade. Shin não é, portanto, apenas um órgão ou uma sede física, mas um dado imaterial. Já o símbolo do ichi (), que significa, literalmente, “um”, é utilizado para representar a unidade. Por sua vez, o ideograma den (), que traz os radicais para pessoa e para o número dois, indica um modo de transmissão, caminho ou tradição.

Assim, o conjunto dessas representações busca traduzir um estado de espírito no qual a compreensão silenciosa do “outro” torna as palavras supérfluas, convertendo qualquer tentativa de comunicação formal não só em algo desnecessário, mas inútil.

No Japão, assim como na China, existe uma preocupação acentuada com a função das palavras e seus símbolos, bem como com a correta transmissão de sentimentos e sensações. Acredita-se que as palavras devam transmitir não somente mensagens “frias”, atreladas exclusivamente à sua representação formal. Mais do que isso, elas também devem transmitir valores que vão além (isso explica a grande preocupação estética presente na escrita oriental, que deu origem, por exemplo, ao Shodô). Valores que revelam e indicam o significado esotérico da própria palavra, ou seja, aquele que lhe é mais caro e que está vedado a receptores incapazes de percebê-lo. Afinal, como dizem os japoneses: “as palavras têm espírito.”

Tal espírito-coração-mente pode ser apreendido e percebido, em parte, pelo próprio estudo dos ideogramas sino-japoneses conhecidos como kanji (ou hanzi na China). O estudo do kanji como caminho dessa aproximação revela, por exemplo, que o símbolo de honestidade, verdade, fidelidade – (que também se lê  shin) –  é composto pela união de dois ideogramas: pessoa, (hito) e falar, (iu).

Esse é um único exemplo – capaz, porém, de abarcar completamente os múltiplos níveis de informação e significado presentes na escrita/leitura clássica de países como Japão e China. Uma palavra, enfim, é – e não é – apenas uma palavra.

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