ENTREVISTA 1| Fernanda Takai

dezembro 30th, 20098:18 pm @ Sandra Hiromoto

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Com a voz doce, afinada e com uma personalidade inconfundível, Fernanda Takai  tem conquistado fãs nas mais diversas faixas etárias. Suas canções infantis cativam e envolvem os pequenos com a melodia suave e cheia de afeto. Adolescentes, jovens e adultos se identificam com a banda multinstrumental Pato Fu, da qual Fernanda é vocalista. Takai-san começou a cantar em 1988 e em 1991 se reuniu com os músicos no que seria mais tarde o Pato Fu. A banda, caracterizada por um pop rock criativo e contundente, brinca com as diversas sonoridades em arranjos incríveis e alcançou merecido sucesso no cenário musical.

Em 2007, após convite do produtor e jornalista Nelson Motta, Fernanda se lança em carreira solo com o CD Onde Brilhem os Olhos Seus, um tributo a Nara Leão, que já fazia parte da sua memória musical. O CD foi bem recebido pelo público e pela crítica, sendo eleito um dos melhores lançamentos do ano.

É assim que essa artista tão versátil foi considerada uma das 10 melhores cantoras do mundo fora dos EUA, segundo a Revista Times. A banda Pato Fu também levou junto o mesmo prêmio. Dessa forma, vão-se acumulando os diversos prêmios, o mais recente da MTV, como melhor cantora de MPB e o melhor clipe para Kobune.

Mas o universo de Fernanda Takai não gira só em torno da música. Em 2008 lançou o Nunca Subestime uma Mulherzinha, coletânea de contos e crônicas publicados pela autora nos jornais CORREIO BRAZILIENSE e O ESTADO de MINAS, em Belo Horizonte.

Fernanda, de descendência japonesa, despertou para o idioma já adulta. Em férias com seu Oditchan e Obatchan, tinha um maior contato com a cultura, comida e costumes, mas sempre foi, segundo ela, de forma muito natural e o interesse no idioma aumentou depois de uma visita ao Japão em 2007. Agora, depois de lançar o CD e DVD ao vivo Luz Negra, Fernanda está produzindo um novo CD em parceria com Maki Nomiya (ex vocalista do Pizzicato Five).*

JORNAL MEMAI – Quando surgiu a idéia de gravar músicas em japonês?

FERNANDA TAKAI – A primeira vez foi em 1999. O Pato Fu já tinha feito músicas em inglês, italiano, espanhol, francês e justo eu que sou neta de japoneses não tinha tido essa idéia. Então surgiu Made In Japan. A letra foi feita em português e depois traduzida pro nihongo.

MEMAI – “Made in Japan”, um grande sucesso da banda teve alguma espécie de inspiração ou foi homenagem a alguém?

FERNANDA -A letra fala da vingança tecnológica do Japão depois de sofrer com as guerras e especialmente com a bomba atômica. O assunto é muito sério, mas tocamos nele de uma forma mais leve, bem-humorada. Já no som, o arranjo é totalmente inspirado no Pizzicato Five.

MEMAI – Como foi a escolha da música “O Barquinho” para tradução em “Kobune”? Você acredita que a bossa nova também tem a cara do Japão?

FERNANDA -Essa era uma das canções que eu poderia ter gravado na edição brasileira do disco, mas como representantes da bossa nova já havia Insensatez e Estrada do Sol. Eu e Nelson escolhemos canções de todas as fases da Nara, não só essa pela qual ficou mais conhecida. Quando o disco ia sair no Japão, precisava ter uma faixa bônus, então pensamos em O Barquinho, porque é uma das mais famosas e não tinha uma versão em nihongo. A bossa nova ainda é muito querida em vários lugares do mundo e os japoneses talvez sejam um dos povos que mais gostam desse tipo de música. Acho que combina sim.

MEMAI – Por que você decidiu lançar um EP** e não um CD do Pato Fu com a banda japonesa de Maki Nomiya ?

FERNANDA -O EP saiu em outubro, pela Taiyo Record em parceria com a Road & Sky. É um projeto solo meu e da Maki, não é Pato Fu. O EP é um formato que dá certo comercialmente no Japão e para uma primeira experiência juntas, era mais viável em termos de produção, tempo e orçamento. Aqui no Brasil sairá apenas em formato digital.

MEMAI -Maki Nomiya citou vocês como uma banda estilo shibuyakei, Poderia nos explicar esse estilo e como o Pato Fu se insere neste contexto?

FERNANDA -Quando fizemos nosso arranjo de Made In Japan, usamos o máximo de elementos com referência ao Pizzicato Five que é considerada a banda mais famosa do estilo shibuyakei. Esse tipo de som se traduz numa banda que tem bastante estilo, é moderna, cuida muito da parte visual do trabalho (clipes, shows, capas) e transita entre um público um pouco mais sofisticado. Por algumas vezes o Pato Fu foi tido como uma banda assim, meio cultuada aqui no Brasil.

MEMAI -De que forma você  consegue conciliar ser escritora, vocalista do Pato Fu e sua carreira solo?

FERNANDA -Eu administro bem o meu tempo, sou uma pessoa muito disciplinada e tenho bom-humor no dia a dia. Isso ajuda bastante nessas multitarefas. Ainda tenho uma filha de 6 anos e gosto de cuidar da casa!

MEMAI -Escrever um livro e crônicas para jornal foi um acaso ou a literatura sempre esteve presente em sua vida ?

FERNANDA -Comecei a escrever por causa do convite de outras pessoas. Não pensava em ter uma coluna em dois jornais ou escrever textos pra diversas publicações do Brasil. Foi tudo por acaso. O livro é uma compilação dos textos mais significativos entre 2005/2007. Já tenho o dobro deles agora. Sempre fui mais leitora do que escritora. E sinceramente, ainda continuo assim. Essa minha outra atividade tem só 4, 5 anos. Na música me sinto mais à vontade porque já são 17 anos de carreira.

MEMAI – Em seu livro você aborda com ternura as relações com seus avós japoneses. Como eles influenciaram sua formação como artista ?

FERNANDA -Acho que me influenciaram mais como pessoa mesmo e já que a música vem dessa nossa bagagem de sensibilidade, atenção, observação, recriação e rearranjo de elementos diversos, a presença da minha família, não só  do lado oriental, mas também a da minha mãe – que é de origem portuguesa – me faz ser o que sou.

MEMAI -Sabemos que você tem frequentado nihongakko, como surgiu essa necessidade?

FERNANDA -Frequentei a escola no primeiro ano e depois fiquei tomando aulas particulares. Tenho até  estado afastada das aulas desde o fim de maio porque minha agenda ficou bem complexa. Não gosto de ir à aula, sem estudar, é preciso fazer direitinho as lições. Então combinei com minha sensei que assim que tivesse mais disponibilidade, voltaria à ela. Daí eu faço uma revisão sozinha por uma semana e volto ao ritmo normal. Tive vontade de aprender o idioma quando estive pela primeira vez no Japão. Gostei demais do país e das pessoas e achei que sendo neta de japoneses tinha a obrigação de conhecer mais sobre a cultura. Nada como estudar a língua pra conhecer melhor um povo.

MEMAI – Você se considera uma nikkei? Como isso influencia no seu modo de vida?

FERNANDA -Sim, desde o uso do meu nome verdadeiro profissionalmente à admiração que tenho por minhas origens nipônicas. Gosto muito de pensar que tenho algumas das qualidades de um nikkei como a responsabilidade e dedicação verdadeira ao trabalho e à família. Agora os defeitos devo ter também, mas não precisamos listá-los, não é? Tento ser sempre uma pessoa correta e ao mesmo tempo me sinto feliz com tudo o que vou realizando aos poucos.

Discografia Pato FU

Rotomusic de Liquidificapum (1993)

Gol de Quem? (1995)

Tem Mas Acabou (1996)

Televisão de Cachorro (1998)

Isopor (1999)

Ruído Rosa (2001)

MTV Ao Vivo No Museu da Pampulha (2002)

Toda Cura Para Todo Mal (2005)

Daqui Pro Futuro (2007)


Discografia Fernanda Takai

Onde Brilhem os olhos seus (2007)

Luz Negra: ao Vivo ( 2009 )

Livro

Nunca Subestime uma Mulherzinha, Panda Books, 2008

* Pizzicato Five – banda pop japonesa ativa de 1985 a 2001. Propagou o estilo shibuya-kei. Maki Nomiya entrou na banda em 1991.

** EP: formato digital que comporta entre 4 e 8 faixas de gravação musicail, com duração média de 15 a 35 minutos.

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