O GATO WABI SABI

dezembro 30th, 20097:00 pm @ Lina Saheki

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O GATO WABI SABI

No início deste ano eu e meu marido adotamos uma gatinha para nos fazer companhia. Seu nome é Foo. Não que Foo signifique alguma coisa, apenas gostamos da sonoridade do nome quando a veterinária comentou que no momento que a levássemos para casa a nossa outra gatinha iria fazer “foo” para ela por um bom tempo. Rimos, e acabamos adotando o nome. Bem, a verdade é que Foo, quando chegou, estava bem longe de ser um modelo de beleza felina. Mestiça de siamês com angorá, ela é uma gatinha bege com manchas marrons irregulares, com a orelha direita ligeiramente maior do que a esquerda e caprichosamente vesga. Na época, ela estava gripada e com fungos que deixavam crostas e buracos na pelagem. Por suas características, logo a apelidamos de “gato wabi-sabi”.

Wabi-sabi é uma percepção estética muito própria da cultura japonesa. Considerado de difícil, senão impossível, definição – é muito mais uma tentativa de contemplação e aceitação silenciosa da realidade em toda a sua finitude.

O olhar wabi-sabi busca reconhecer na impermanência e na imperfeição inerente à natureza, a consagração da beleza em sua totalidade.

Dito assim, esse conceito embora possa parecer de fácil compreensão intelectual, na vida prática prova ser um desafio de aplicação, ainda mais na sociedade contemporânea que parece ter uma sede insaciável pelo novo, moderno e jovem.

Conseguir contemplar e aceitar a beleza das marcas deixadas pelo tempo -seja na cerca da casa que está com a tintura desbotada, seja no bule que já está enferrujado e torto, ou nos sinais de nossa própria velhice que não tarda em chegar, – prova ser um exercício constante de meditação.

Nesse sentido, aceitar a beleza como um todo que supera a dualidade bonito/feio, jovem/velho, bom/mau parece nos aproximar, inclusive, da própria percepção taoísta de totalidade, como nos remete com freqüência o símbolo do Tao.

A vida perfeita é aquela que contempla e aceita as imperfeições, e não aquela que não possui imperfeições, pois essa última é incompleta e, portanto, não-perfeita. Assimétrica, irregular e impermanente assim é a natureza da vida, e assim é a  estética wabi-sabi.

Perceber a beleza do imperfeito e superar esse próprio conceito de imperfeito, nesse mundo que busca a “perfeição” a qualquer custo. Será que conseguimos?

Enquanto busco respostas para o meu desafio diário de viver uma vida mais wabi-sabi, a  minha gatinha, sem consciência desses paradoxos ou de sua falta de simetria brinca feliz  – soberana e perfeita – em toda a sua imperfeição.

É, tenho muito a aprender com ela.

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