OS CINCO ESTILOS DO HAICAI NO PARANÁ

dezembro 30th, 20097:43 pm @ Jornal Memai

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OS CINCO ESTILOS DO HAICAI NO PARANÁ

Artigo de José Marins, haicaísta e escritor, autor de Poezen (haicai); Quiçaça (romance inédito); O Dia do Porco (romance inédito)

O primeiro haicai feito no Brasil tem raízes japonesas. Foi realizado a bordo do Kasato-maru, navio que trouxe a primeira leva de imigrantes do Japão. Em 18 de junho de 1908, o poeta Hyokotsu (Shuhei Uetsuka, chefe dos imigrantes), escreveu:

karetaki o / miagete tsukinu / iminsen

A nau imigrante
chegando: vê-se lá no alto
a cascata seca.

(Tradução Masuda Goga)

O ESTILO JAPONÊS

O estilo japonês de fazer haicai chega ao Paraná com os primeiro migrantes que saíram do estado de São Paulo e se fixaram no Norte (Londrina, Assai, Urai). O haicai continuará sendo escrito em japonês nas aulas de um mestre da arte haicaística: Nenpuku Sato.

As características do estilo japonês são: ser vivencial (o poeta registra as sensações junto à natureza), sempre em língua japonesa, mantém na estrutura 17 sons, contém o termo de estação (kigo), não trazem rimas e uso de uma linguagem simples.

Alguns haicais de NENPUKU :

A lua se insinua
na alvura perfumada
do cafezal florido

Sementes de algodão.
Minhas mãos agora
são as do vento

Mudou a moça
que tira a água do poço –
uma borboleta.

Haicais de alunos de Sato:

Depois dos sessenta
minha voz está tranqüila.
Mesma voz do outono.

Mitio Suguimoto (Londrina)

Outra primavera
Com novo anel de guizo
cobra sai da toca

Shinshiti Minowa (Londrina)

Hoje é Carnaval
O quimono também serve
como fantasia.

Shigeo Watanabe (Assai)

Parada de trem.
com o vendedor de flores
Vêm as borboletas

Sôshi Nakajima (Assai)

Estalos no alto,
Ouço o som de pinhões caindo
na tarde de sol.

Seizo Watanabe, (Curitiba)

O ESTILO KOLODYANO

Em 1941 a poeta Helena Kolody se torna a primeira mulher a publicar haicai no Brasil, ao lançar o livro Paisagem Interior, no qual havia três haicais. Destaco um deles, famoso:

Arco-íris

Arco-íris no céu.
Está sorrindo o menino
que há pouco chorou.

Helena Kolody (Curitiba)

Características do haicai kolodyano:

Usa: título (elemento que não existe no estilo japonês); às vezes a métrica; noutras a rima; a personificação (antropomorfismo); e a linguagem poética (uso da metáfora).

A maneira marcante de Kolody realizar seus haicais teve grande influência em alguns poetas.

Geada

Nas manhãs de frio
a paisagem, tiritando,
se veste de branco

Delores Pires (Curitiba):

Renovação

Pessegueiro em flor
Prenúncio de primavera
Reprise de amor.

Diva Ferreira Gomes (Curitiba):

Noite

No quadro-negro
vou soletrando
um alfabeto de estrelas

João Manuel Simões (Curitiba):

O ESTILO GUILHERMINO

Guilherme de Almeida foi um dos poetas que mais auxiliou na divulgação do haicai no país. Porém, sua maneira de fazer haicai distanciou-se muito da origem do poema. (O que não quer dizer que isso fosse ruim. Os japoneses adoram os haicais guilherminos, um deles era o mestre Masuda Goga, amigo pessoal de Almeida).

Guilherme de Almeida criou um modelo para se fazer o haicai, no qual entrava a métrica perfeita e quatro rimas. Duas combinavam-se no final do primeiro verso, com o final do terceiro. E duas, internas, rimavam-se a segunda sílaba com a sétima no segundo verso.

GUILHERME DE ALMEIDA:

O “haicai”                                                                             O esquema:

Lava, escorre, agita                                                         – – – –  A

a areia. E, enfim, na bateia                                            –  B – – – –  B

fica uma pepita.                                                               – – – –  A

Pescaria

Cochilo. Na linha
Eu ponho a isca de um sonho.
Pesco uma estrelinha.

História de algumas vidas

Noite. Um silvo no ar.
Ninguém na estação.E o trem
passa sem parar.

Características do estilo guilhermino:

Coloca acima do terceto um título; usa métrica exata; inclui quatro rimas elaboradas; sua linguagem é a do poema (personificação, metáfora).

Alguns poetas que praticam o haicai Guilhermino no Paraná:

Temendo o negrume
da mata ao som da cascata,
sigo um vaga-lume.

Leonilda Hilgenberg Justus (Ponta Grossa)

Fraternidade

Chuva de verão.
Na luz, a jovem conduz
o avô pela mão.

Shyrlei Queiroz (Curitiba)

Maresia

O dia fugindo
No ar um cheiro de mar.
A noite vem vindo.

Delores Pires (Curitiba)

O ESTILO HAICAI-LIVRE (Free-haiku)

Paulo Leminski é quem encarna o principal líder desta forma, que nos anos 80 dominou a cena poética paranaense (curitibana, principalmente). Leminski tinha grande admiração pela cultura e literatura japonesas. Porém, quando praticava o haicai preferia um estilo livre, sempre portador de “haimi” (sabor do haicai).

As principais características do estilo livre:

Não usa métrica; pode usar rimas; busca o haimi; faz jogo de palavras; e, usa linguagem poética (metáforas, especialmente).

soprando esse bambu
só tiro
o que lhe deu o vento

jardim da minha amiga
todo mundo feliz
até a formiga

lua na água
alguma lua
lua alguma

Paulo Leminski (Curitiba)

amigo grilo
sua vida foi curta
minha noite vai ser longa

entre a espuma do mar
e a nuvem toda branca
o voo da garça

Alice Ruiz (Curitiba)

tempo de jaboticaba
nem bem começa
já acaba

Domingos Pelegrini (Londrina)

cheguei amargo
minha flauta doce
nem se toca

Eduardo Hoffman (Curitiba)

O ESTILO CLÁSSICO (tradicional)

Em 1987, Masuda Goga, juntamente com um grupo de haicaístas, funda em São Paulo o Grêmio Haicai Ipê, com o propósito de estudar e difundir o haicai clássico (com forte ligação com o haikai originário japonês).

Alguns haicais de mestre Masuda Goga:

Libélula voando
Pára num instante e lança
a sombra no chão

Inúmeras flores
nos túmulos de Finados –
Na alma só saudade.

No ar pétalas dançam
Qual flocos de neve a cair
Pereira em flor.

Características do haicai clássico (haiku):

É vivencial (experiência do poeta junto à natureza); sem título; usa métrica 17 sílabas; contém o kigo (termo designativo de estação); sem rimas; e, usa linguagem simples.

tal a brevidade
daquela estrela cadente
fugiu-me o pedido

semente de ipê
amadurecem nas vagens
só o vento as leva

José Marins (Curitiba)

Um salto no abismo
e o mergulho na mata.
Cascata na serra.

Sérgio Francisco Pichorim (São José dos Pinhais)

Na folha de amora
nutre-se o bicho-da-seda.
A quem vestirá?

A. A. de ASSIS (Maringá)

Entre os bóias-frias
um casal já bem grisalho
colhendo algodão.

Neide Rocha Portugal (Bandeirantes)

*Em itálico: kigos

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