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	<title>Memai &#124; Jornal de Letras e Artes Japonesas &#187; Lina Saheki</title>
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	<description>Memai &#124; Jornal de Letras e Artes Japonesas</description>
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		<title>VIDA &#124; Vertigens Vertiginosas</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Feb 2011 19:00:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lina Saheki</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vida]]></category>

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		<description><![CDATA[Existem sonhos capazes de nos transformar em versões melhores de nós. E esse caminho, apesar de difícil e tortuoso, pode nos conduzir ao encontro de pequenos pontos de luz disfarçados de amigos. Este ano o JORNAL MEMAI  completou 1 ano. Ao pensar nisso, não consigo deixar de sorrir. É maravilhoso ver cada edição crescendo, tomando [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p><em>Existem sonhos capazes de nos transformar em versões melhores de nós. E esse caminho, apesar de difícil e tortuoso, pode nos conduzir ao encontro de pequenos pontos de luz disfarçados de amigos</em>.<strong></strong></p></blockquote>
<p>Este ano o JORNAL MEMAI  completou 1 ano. Ao pensar nisso, não consigo deixar de sorrir. É maravilhoso ver cada edição crescendo, tomando forma, criando identidade. Uma identidade rica e híbrida, que tem a cara de seus colaboradores e leitores. Somos um coletivo de autores, descendentes e não-descendentes de japoneses, unidos pelo ideal de difundir a cultura japonesa e, num plano mais amplo, a cultura do Extremo Oriente. Não por imaginar tal cultura superior a qualquer outra, mas por amá-la e por acreditar que o conhecimento e o reconhecimento do outro &#8211; japonês, italiano, polonês, alemão etc. &#8211; é um passo fundamental para o diálogo cultural.</p>
<p>Desde o início, quando o jornal era apenas uma idéia, pensamos num veículo voltado para um público maior (não somente para nipodescendentes), formado por  aqueles que manifestassem  afinidade com a cultura japonesa. Mais ainda, sonhamos poder, pelas letras e pelo afeto para com a cultura, despertar essa afinidade.</p>
<p>Queríamos tornar mais acessíveis a informação e a linguagem sobre algumas chaves de compreensão da cultura japonesa. Para isso, contamos com nossas próprias experiências e amizades. No JORNAL MEMAI, cada um, à sua maneira, vive a cultura japonesa em seu dia-a-dia. Na equipe fixa  temos a escritora Marília Kubota (que lançou há pouco o livro <strong>Retratos Japoneses no Brasil)</strong>, a artista plástica Sandra Hiromoto (que foi expor obras sobre o tema no Japão), a jornalista Mylle Silva (que promove a cultura pop no Portal Tadaima) os ilustradores Guilherme Match (criador do personagem Chibi Seto) e Simonia Fukue Nakagawa (especialista em gravura japonesa e mangá), a atriz Patrícia Kaminagakura (que escreveu, dirigiu e encenou  uma peça sobre lendas japonesas), a pesquisadora Suzana Tamae Inokuchi (que estuda a obra do cineasta Akira Kurosawa). E temos outros,  como o  designer Raphael Faria Kruger, a haicaista Teruko Oda, o fotógrafo Gustavo Morita  e nossos anunciantes, que amam o suficiente a cultura japonesa para concretizar nosso sonho Não podemos esquecer os  grandes amigos que  se dispõem a escrever,  comentar, contar, ilustrar e fotografar., para que cada número seja mais que um.</p>
<p>Cada um de nós luta para concretizar  esse  sonho que é o jornal: uma vertigem de sonhos.  Em japonês, “vertigem” é “memai” (眩暈) – e tornou-se a nossa vertigem, prenhe de “frios na barriga”.</p>
<p>Ao reler o segundo ideograma de memai (暈) me ocorre que ele é formado pelo ideograma de sol 日e de veículo, automóvel -車, realizando o sentido de órbita, anel, coroa (em sentido astronômico)? Chego à conclusão de que orbitar o astro-rei provoca uma dose mínima de vertigem, e de que só um sol é capaz de atrair e reter tanta gente boa em sua órbita.</p>
<p>Sempre digo a meus alunos que a grande pergunta a se fazer diante de um projeto não é se vai alcançá-lo, mas se vale a pena lutar. Existem sonhos poderosos capazes de nos transformar em versões melhores de nós. E esse caminho, apesar de difícil e tortuoso, pode nos conduzir ao encontro de pequenos pontos de luz disfarçados de amigos.</p>
<p>Assim, ao lado de vários novos-velhos-amigos,  nosso pequeno grande jornal vai se formando, semeando sonhos e contando um pouco de nossas experiências. Quem sabe, afinal, aonde  poderão ecoar? Que  novas historias e trajetórias vão  somar em seu segundo ano? Nós, certamente, não sabemos, apenas estamos siderados. E vivemos a vertigem.</p>
<p><a class="a2a_dd a2a_target addtoany_share_save" href="http://www.addtoany.com/share_save#url=http%3A%2F%2Fwww.jornalmemai.com.br%2F2011%2F02%2Fa-importancia-de-ter-vertigem%2F&amp;title=VIDA%20%7C%20Vertigens%20Vertiginosas" id="wpa2a_2"><img src="http://www.jornalmemai.com.br/wp-content/plugins/add-to-any/share_save_171_16.png" width="171" height="16" alt="Share"/></a></p>]]></content:encoded>
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		<title>VIDA &#124; Gentilezas e Verdades</title>
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		<pubDate>Wed, 26 Jan 2011 19:00:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lina Saheki</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vida]]></category>

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		<description><![CDATA[Percebi que confundia o sentido da palavra gentil – em português – com o da mesma palavra em japonês. Em Japonês, gentil/gentileza significa shinsetsu e envolve o conceito de pais, família com um sufixo que indica sinceridade, amabilidade, agudez. Como um pequeno furacão, Mochi entra na sala escancarando a porta. Traz aquela expressão de criança [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><em>Percebi que confundia o sentido da palavra gentil – em português – com o da mesma palavra em japonês. Em Japonês, gentil/gentileza significa </em></span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><em>shinsetsu e envolve o conceito de pais, família com um sufixo que indica sinceridade, amabilidade, agudez.</em></span></span></p></blockquote>
<p><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;">Como um pequeno furacão, Mochi entra na sala escancarando a porta. Traz aquela expressão de criança com raiva que só a inocência permite.<br />
</span></span></p>
<p><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><em>- O que foi, meu amor?</em></span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"> , pergunto, enquanto a ajudo a se livrar da carga de livros quase tão pesada quanto ela.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;">-</span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><em> Foi o Yu, mamãe. Foi o Yu, ele me chamou de mentirosa. E eu não sou mentirosa! Não sou!, </em></span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;">responde a irada Mochi.</span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><em>- Mas, como assim, filhinha?O Yuki é tão educado.Tenho certeza de que jamais diria uma coisa dessas. Vai ver foi só um mal entendido.</em></span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"> – Afago seu rosto e a coloco sobre meus joelhos. </span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><em>Conta essa história direitinho, tenho certeza que ele não quis dizer isso.</em></span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"></span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><em>Mas mãe, é isso mesmo que a senhora ouviu: men-ti-ro-sa! Eu?</em></span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"> – Afogueada e agitando as mãos, ela começa a narrar os fatos.</span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><em>- Foi assim. Hoje, lá na escola, a tia pediu para a gente fazer uma redação sobre nossas férias. Daí que a redação do Yu ficou boa, muito boa mesmo, e eu disse isso pra ele.<br />
</em></span></span></p>
<p>-</p>
<p><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><em>- Nossa, Yu, parabéns!</em></span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><em><br />
</em></span></span></p>
<p><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><em>- E sabe o que ele disse? &#8211; Com os olhos imensos e meio sem ar, dispara:</em></span></span></p>
<p><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><em>- Obrigado, você é muito gentil!</em></span></span></p>
<p><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><em>-Vê se pode mamãe, me chamar de gentil, de gentil! – Por quê, mamãe, por quê? Eu nem fiz nada para ele&#8230;</em></span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><br />
</span></span></p>
<p><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><em>- Mas filhinha, foi só isso?</em></span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"> – pergunto, ainda sem atinar para o motivo da zanga.</span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><em>- Só isso!? Você não ouviu, mamãe? Gentil! Ele disse que eu fui gentil, ah! (e sai rodando pela sala com as mãos para o alto).</em></span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"></span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><em>- Meu amor!</em></span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"> – Trago seu corpo junto ao meu: </span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><em>Você por acaso sabe o que é gentil?</em></span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><br />
</span></span></p>
<p><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;">-</span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><em> Sei sim, mamãe! Fui olhar no dicionário, quer ver? </em></span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;">Com um pulo se levanta e corre para o escritório, de onde traz o dicionário. E vem recitando:<br />
</span></span></p>
<p>– <span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><em><strong>Gentil. 1 caráter ou qualidade do que é polido. 2 atitude gentil; cortesia, civilidade. Gentileza. 1 conjunto de formalidades, de palavras e atos que os cidadãos adotam entre si para demonstrar mútuo respeito e consideração; boas maneiras, civilidade, cortesia. 2 o fato e a maneira de observar essas formalidades</strong></em></span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><strong>.</strong></span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><br />
</span></span></p>
<p><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><em>- Viu só? Viu só? Ele me chamou de mentirosa! De mentirosa!</em></span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"> Continua a protestar a pequena aprendiz da verdade, enquanto gotinhas de incompreensão brotam de seus olhos.<br />
</span></span></p>
<p><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><em>-Você entende mamãe, entende? Não falei só para ser educada ou respeitar as boas maneiras: falei porque era verdade! Então, porque ele me disse aquilo?</em></span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><br />
</span></span></p>
<p><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><em>-– Eu não sou gentil! Não sou!</em></span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><br />
</span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><br />
</span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;">E assim, enquanto a pobre menina que não quer ser chamada de gentil continua a soluçar, eu a abraço forte, com o sorriso terno de quem foi tocada por um anjo.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;">P.S. Escrevi essa pequena história há algum tempo atrás, quando percebi que confundia o sentido da palavra gentil – em português – com o sentido da mesma palavra em japonês. Pois em japonês gentil/gentileza significa [</span></span><span style="font-family: Arial Unicode MS;"><span style="font-family: MS Mincho,Arial Unicode MS,serif;"><span style="font-size: small;">親切】</span></span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><em>shinsetsu</em></span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"> - e envolve em sua construção o conceito de pais, família [</span></span><span style="font-family: Arial Unicode MS;"><span style="font-family: MS Mincho,Arial Unicode MS,serif;"><span style="font-size: small;">親</span></span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;">] com um sufixo de adjetivação [</span></span><span style="font-family: Arial Unicode MS;"><span style="font-family: MS Mincho,Arial Unicode MS,serif;"><span style="font-size: small;">切</span></span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;">] que indica sinceridade, amabilidade, agudez. Assim, imaginem que quando alguém falava algo como:</span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;"><em>Fulana foi só gentil com ela. Ela não acha isso não, aquilo foi só para ser gentil. </em></span></span><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;">Eu na verdade entendia a frase, de forma completamente errada.</span></span></p>
<p><span style="font-family: Times New Roman,serif;"><span style="font-size: small;">Depois disso, já não consigo sorrir tanto quando alguém faz algo só por gentileza e opto por continuar a confundir em meu cotidiano ‘gentil por cortesia’ com ‘shinsetsu por amor a família’.</span></span></p>
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		<title>VIDA &#124; KI WO TSUKAWANAIDE</title>
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		<pubDate>Tue, 18 Jan 2011 19:00:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lina Saheki</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vida]]></category>

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		<description><![CDATA[A paixão pela Língua Japonesa surgiu por acaso, com a oportunidade de ensinar. A cada dia veio crescendo . Desse momento em diante fui tragada por um universo novo de gentileza, respeito e encanto. Meu amor pelo japonês não foi juvenil, mas maduro. Nascido mais da convivência e da estranha familiaridade com certos conteúdos que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p><span style="font-size: small;">A paixão pela Língua Japonesa surgiu por acaso, com a oportunidade de ensinar. A cada dia veio crescendo . Desse momento em diante fui tragada por um universo novo de gentileza, respeito e encanto.</span></p></blockquote>
<p><span style="font-size: small;">Meu amor pelo japonês não foi juvenil, mas maduro. Nascido mais da convivência e da estranha familiaridade com certos conteúdos que chegam com a idade adulta. Apesar de conhecer o idioma desde pequena, sua presença e uso eram tão naturais que eu não conseguia ver a beleza escondida por trás de seus traços e entonações.</span></p>
<p><span style="font-size: small;">Pois o encontro (na verdade, um reencontro) não foi súbito, mas algo mais próximo de alguém que, por desconfiar de paixões avassaladoras e repentinas, costuma se afastar de movimentos muito bruscos. Gosto de coisas naturais, pari-passu, amores que surgem sem a gente perceber. Pois é: sou do tipo que se apaixona pelo sorriso de todos os dias, simplesmente porque ele me é dado todos os dias.</span></p>
<p><span style="font-size: small;">Sou descendente de japoneses e durante a infância passei alguns anos no arquipélago. Assim, minhas primeiras vogais foram o “a-i-u-e-o” e não o “a-e-i-o-u”. Insisto: como tudo que nos é dado facilmente, nunca tinha dado muito valor para o idioma de meus pais e avós. </span></p>
<p><span style="font-size: small;">A vida seguia com minha visão “normal” sobre o Japonês até que um dia, há sete anos, precisei ensinar o idioma. Tinha 26 anos e estava em Madri para fazer um doutorado em Direitos Humanos. Perguntaram se eu conhecia alguém que pudesse ensinar japonês para funcionários espanhóis que participariam da Expo-Universal de Aichi em 2005. Disse, quase involuntariamente, que eu falava. E desse momento em diante fui tragada por um universo novo de gentileza, respeito e encanto.</span></p>
<p><span style="font-size: small;">Acredito, hoje, que foi inevitável. Impossível não me deixar contagiar pelo amor ao idioma de meus pais. O que eles viam? Porque amavam tanto a cultura que lhes era estranha? Quanto mais tentava descobrir, mais eu via a beleza que sempre estivera ali. Desde então, sou fisgada continuamente por momentos quase búdicos de percepção do divino no cotidiano. Satoris do dia-a-dia. Despretensiosas brechas do sagrado em nossas vidas.</span></p>
<p><span style="font-size: small;">Não faz tempo, conversava com minha mãe quando, em determinada oportunidade, disse algo como “não se preocupe” &#8211; o que, em japonês, ficou “</span><span style="font-family: Arial Unicode MS;"><span style="font-size: small;">気を使わないで” </span></span><span style="font-size: small;">(“ki wo tsukawanaide”). Eis que, de repente, percebi – relâmpago em dia de sol – que o que havia dito significava mais do que o que pretendera dizer.</span></p>
<p><span style="font-size: small;">A expressão traduzida corriqueiramente como “não se preocupe” deitava raízes em significados mais profundos. O “ki” de “ki wo tsukawanaide” é o mesmo “ki” de “Aikidô”, “Reiki”, ou o “chi” chinês de “Taichi” ou “Chikung”. O “ki”, enfim, de energia vital – conceito fundamental para os orientais, que acreditam que todos os seres compartilham de um mesmo elo, um mesmo ciclo de vida e morte, e que merecem, portanto, o mesmo respeito. Tanto que o ideograma do “ki=</span><span style="font-family: Arial Unicode MS;"><span style="font-size: small;">気” </span></span><span style="font-size: small;">tem origem nos ideogramas de rio “</span><span style="font-family: Arial Unicode MS;"><span style="font-size: small;">川</span></span><span style="font-size: small;">= kawa” e campo de arroz “</span><span style="font-family: Arial Unicode MS;"><span style="font-size: small;">田</span></span><span style="font-size: small;">=ta”, denunciando o vínculo da vida com a natureza. E a expressão “tsukawanaide” significa, literalmente, “não gaste, não despenda”.</span></p>
<p><span style="font-size: small;">Então, o que eu estava dizendo para minha mãe, naquele momento, era literalmente: “Não gaste sua energia vital comigo”. Naquele instante tive um pequeno vislumbre das inúmeras vezes em que a havia feito gastar energia vital comigo, da gestação às minhas teimosias, e de quantas vezes mais ela ainda iria fazer isso. </span></p>
<p><span style="font-size: small;">Tive vontade de chorar. </span></p>
<p><span style="font-size: small;">Ao redescobrir a palavra na forma original japonesa, redescobri um sentimento de gratidão maior do que se pode expressar. Ao redescobrir “ki wo tsukawanaide” escondidinho em um prosaico “não se preocupe”, verti lágrimas de agradecimento. Mamãe, é claro, riu um bocado disso – e também chorou um pouquinho.</span></p>
<p><a class="a2a_dd a2a_target addtoany_share_save" href="http://www.addtoany.com/share_save#url=http%3A%2F%2Fwww.jornalmemai.com.br%2F2011%2F01%2Fki-wo-tsukawanaide-quanta-energia%2F&amp;title=VIDA%20%7C%20KI%20WO%20TSUKAWANAIDE" id="wpa2a_6"><img src="http://www.jornalmemai.com.br/wp-content/plugins/add-to-any/share_save_171_16.png" width="171" height="16" alt="Share"/></a></p>]]></content:encoded>
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		<title>VIDA l O Gato Wabi Sabi</title>
		<link>http://www.jornalmemai.com.br/2009/12/o-gato-wabi-sabi/</link>
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		<pubDate>Wed, 30 Dec 2009 21:00:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lina Saheki</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vida]]></category>
		<category><![CDATA[Artes Visuais]]></category>
		<category><![CDATA[gato siamês]]></category>
		<category><![CDATA[lina saheki]]></category>

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		<description><![CDATA[Siamês, angorá ou uma nova espécie hibrida ? Não  se trata de um cruzamento genético inusitado. É a "tentativa de contemplação e aceitação silenciosa da realidade em toda a sua finitude".]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;">No início deste ano eu e meu marido adotamos uma gatinha para nos fazer companhia. Seu nome é Foo. Não que Foo signifique alguma coisa, apenas gostamos da sonoridade do nome quando a veterinária comentou que no momento que a levássemos para casa a nossa outra gatinha iria fazer “foo” para ela por um bom tempo. Rimos, e acabamos adotando o nome. Bem, a verdade é que Foo, quando chegou, estava bem longe de ser um modelo de beleza felina. Mestiça de siamês com angorá, ela é uma gatinha bege com manchas marrons irregulares, com a orelha direita ligeiramente maior do que a esquerda e caprichosamente vesga. Na época, ela estava gripada e com fungos que deixavam crostas e buracos na pelagem. Por suas características, logo a apelidamos de “gato wabi-sabi”.</p>
<p>Wabi-sabi é uma percepção estética muito própria da cultura japonesa. Considerado de difícil, senão impossível, definição – é muito mais uma tentativa de contemplação e aceitação silenciosa da realidade em toda a sua finitude.</p>
<p>O olhar wabi-sabi busca reconhecer na impermanência e na imperfeição inerente à natureza, a consagração da beleza em sua totalidade.</p>
<p>Dito assim, esse conceito embora possa parecer de fácil compreensão intelectual, na vida prática prova ser um desafio de aplicação, ainda mais na sociedade contemporânea que parece ter uma sede insaciável pelo novo, moderno e jovem.</p>
<p>Conseguir contemplar e aceitar a beleza das marcas deixadas pelo tempo -seja na cerca da casa que está com a tintura desbotada, seja no bule que já está enferrujado e torto, ou nos sinais de nossa própria velhice que não tarda em chegar, &#8211; prova ser um exercício constante de meditação.</p>
<p>Nesse sentido, aceitar a beleza como um todo que supera a dualidade bonito/feio, jovem/velho, bom/mau parece nos aproximar, inclusive, da própria percepção taoísta de totalidade, como nos remete com freqüência o símbolo do Tao.</p>
<p>A vida perfeita é aquela que contempla e aceita as imperfeições, e não aquela que não possui imperfeições, pois essa última é incompleta e, portanto, não-perfeita. Assimétrica, irregular e impermanente assim é a natureza da vida, e assim é a  estética wabi-sabi.</p>
<p>Perceber a beleza do imperfeito e superar esse próprio conceito de imperfeito, nesse mundo que busca a “perfeição” a qualquer custo. Será que conseguimos?</p>
<p>Enquanto busco respostas para o meu desafio diário de viver uma vida mais wabi-sabi, a  minha gatinha, sem consciência desses paradoxos ou de sua falta de simetria brinca feliz  – soberana e perfeita – em toda a sua imperfeição.</p>
<p>É, tenho muito a aprender com ela.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>VIDA  &#124; O Espírito do Ideograma</title>
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		<pubDate>Sun, 01 Nov 2009 18:50:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lina Saheki</dc:creator>
				<category><![CDATA[Vida]]></category>

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		<description><![CDATA[No caminho do auto-cinhecimento, uma palavra, é - e não é - uma palavra: 一心伝心]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Conta a tradição que a origem do zen-budismo tem como marco uma transmissão sem palavras conhecida, hoje, como “o Sermão da Flor”. Nessa história, o Buda histórico, Sidarta Gautama, teria se mantido por um longo período em silêncio, apenas contemplando uma flor, diante de uma assembléia de discípulos ávidos pelos seus ensinamentos. Momento no qual um deles, Mahakashyapa, irrompeu o silêncio com um riso ao compreender o sentido inexprimível da flor e da existência. Correspondendo ao riso, Buda teria dito:</p>
<p>“<em>Eu possuo o Tesouro do Correto Dharma e a Maravilhosa Mente de Nirvana (Shobogenzo Nehan Myoshin) e agora o transmito a você.”</em></p>
<p>Traduzido frequentemente como <em>“transmissão de coração para coração”</em>, <em>“transmissão sem palavras”</em> ou <em>“transmissão de mente para mente”</em>, o termo <em>isshin denshin </em><strong>(</strong><strong>一心伝心)</strong>, tão amado pelos próprios japoneses, pode auxilliar as pessoas a compreender um pouco mais sobre como funciona a visão de mundo no Japão.</p>
<p>Nascido na China como pictograma que representava o coração físico e depois simplificado para facilitar a escrita, o ideograma <em>shin</em> ou<em> kokoro</em> (<strong>心</strong>) significa, a um só tempo, coração, mente e espírito. Assim, a moderna divisão/oposição que fazemos no Ocidente entre os conceitos de coração e mente – moderna, porque entre os romanos ele também sediava sentimentos, como <em>corda</em> &#8211; é superada por esse significante, cuja essência abarca, compreende e ultrapassa qualquer dualidade. <em>Shin </em>não é, portanto, apenas um órgão ou uma sede física, mas um dado imaterial. Já o símbolo do <em>ichi</em> (<strong>一</strong>), que significa, literalmente, “um”, é utilizado para representar a unidade. Por sua vez, o ideograma <em>den</em> (<strong>伝</strong>), que traz os radicais para pessoa e para o número dois, indica um modo de transmissão, caminho ou tradição.</p>
<p>Assim, o conjunto dessas representações busca traduzir um estado de espírito no qual a compreensão silenciosa do “outro” torna as palavras supérfluas, convertendo qualquer tentativa de comunicação formal não só em algo desnecessário, mas inútil.</p>
<p>No Japão, assim como na China, existe uma preocupação acentuada com a função das palavras e seus símbolos, bem como com a correta transmissão de sentimentos e sensações. Acredita-se que as palavras devam transmitir não somente mensagens “frias”, atreladas exclusivamente à sua representação formal. Mais do que isso, elas também devem transmitir valores que vão além (isso explica a grande preocupação estética presente na escrita oriental, que deu origem, por exemplo, ao <em>Shodô</em>). Valores que revelam e indicam o significado esotérico da própria palavra, ou seja, aquele que lhe é mais caro e que está vedado a receptores incapazes de percebê-lo. Afinal, como dizem os japoneses: <em>“as palavras têm espírito.”</em></p>
<p>Tal espírito-coração-mente pode ser apreendido e percebido, em parte, pelo próprio estudo dos ideogramas sino-japoneses conhecidos como <em>kanji</em> (ou <em>hanzi</em> na China). O estudo do <em>kanji</em> como caminho dessa aproximação revela, por exemplo, que o símbolo de honestidade, verdade, fidelidade &#8211; <strong>信</strong> (que também se lê  <em>shin</em>) &#8211;  é composto pela união de dois ideogramas: pessoa, <strong>人</strong> (<em>hito</em>) e falar, <strong>言</strong> (<em>iu</em>).</p>
<p>Esse é um único exemplo – capaz, porém, de abarcar completamente os múltiplos níveis de informação e significado presentes na escrita/leitura clássica de países como Japão e China. Uma palavra, enfim, é – e não é – apenas uma palavra.</p>
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