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	<title>Memai &#124; Jornal de Letras e Artes Japonesas &#187; Fu (Entrevista)</title>
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	<description>Memai &#124; Jornal de Letras e Artes Japonesas</description>
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		<title>NUNCA SUBESTIME FERNANDA TAKAI</title>
		<link>http://www.jornalmemai.com.br/2009/12/nunca-substime-fernanda-takai/</link>
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		<pubDate>Wed, 30 Dec 2009 22:18:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Sandra Hiromoto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fu (Entrevista)]]></category>
		<category><![CDATA[fernanda takai]]></category>
		<category><![CDATA[maki nomiya]]></category>
		<category><![CDATA[pizzicato five]]></category>

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		<description><![CDATA[Seu primeiro flerte com o Japão veio com a música “Made in Japan”,  sátira à mania  tecnológica  japonesa.  A partir daí Fernanda Takai  começou a estreitar o relacionamento com a terra dos avós paternos : fez shows lá, gravou uma versão de “O Barquinho”, em japonês  e agora está lançando um trabalho em parceria com a vocalista da banda japonesa Pizzicato Five.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Com a voz doce, afinada e com uma personalidade inconfundível, Fernanda Takai  tem conquistado fãs nas mais diversas faixas etárias. Suas canções infantis cativam e envolvem os pequenos com a melodia suave e cheia de afeto. Adolescentes, jovens e adultos se identificam com a banda multinstrumental Pato Fu, da qual Fernanda é vocalista. Takai-san começou a cantar em 1988 e em 1991 se reuniu com os músicos no que seria mais tarde o Pato Fu. A banda, caracterizada por um pop rock criativo e contundente, brinca com as diversas sonoridades em arranjos incríveis e alcançou merecido sucesso no cenário musical.</p>
<p>Em 2007, após convite do produtor e jornalista Nelson Motta, Fernanda se lança em carreira solo com o CD <strong>Onde Brilhem os Olhos Seus</strong>, um tributo a Nara Leão, que já fazia parte da sua memória musical. O CD foi bem recebido pelo público e pela crítica, sendo eleito um dos melhores lançamentos do ano.</p>
<p>É assim que essa artista tão versátil foi considerada uma das 10 melhores cantoras do mundo fora dos EUA, segundo a Revista Times. A banda Pato Fu também levou junto o mesmo prêmio. Dessa forma, vão-se acumulando os diversos prêmios, o mais recente da MTV, como melhor cantora de MPB e o melhor clipe para Kobune.</p>
<p>Mas o universo de Fernanda Takai não gira só em torno da música. Em 2008 lançou o <strong>Nunca Subestime uma Mulherzinha</strong>, coletânea de contos e crônicas publicados pela autora nos jornais CORREIO BRAZILIENSE e O ESTADO de MINAS, em  Belo Horizonte.</p>
<p>Fernanda, de descendência japonesa, despertou para o idioma já adulta. Em férias com seu <em>Oditchan e Obatchan,</em> tinha um maior contato com a cultura, comida e costumes, mas sempre foi, segundo ela, de forma muito natural e o interesse no idioma aumentou depois de uma visita ao Japão em 2007. Agora, depois de lançar o CD e DVD ao vivo <strong>Luz Negra</strong>, Fernanda está produzindo um novo CD em parceria com Maki Nomiya (ex vocalista do Pizzicato Five).*</p>
<p><em><strong>JORNAL MEMAI</strong> &#8211; Quando surgiu a idéia de gravar músicas em japonês?</em></p>
<p><strong>FERNANDA TAKAI</strong> &#8211; A primeira vez foi em 1999. O Pato Fu já tinha feito músicas em inglês, italiano, espanhol, francês e justo eu que sou neta de japoneses não tinha tido essa idéia. Então surgiu <em>Made In Japan</em>. A letra foi feita em português e depois traduzida pro <em>nihongo</em>.</p>
<p><em><strong>MEMAI</strong> &#8211; &#8220;Made in Japan&#8221;, um grande sucesso da banda teve alguma espécie de inspiração ou foi homenagem a alguém</em>?</p>
<p><strong>FERNANDA</strong><strong> -</strong>A letra fala da vingança tecnológica do Japão depois de sofrer com as guerras e especialmente com a bomba atômica. O assunto é muito sério, mas tocamos nele de uma forma mais leve, bem-humorada. Já no som, o arranjo é totalmente inspirado no Pizzicato Five.</p>
<p><em><strong>MEMAI</strong> &#8211; Como foi a escolha da música &#8220;O Barquinho&#8221; para tradução em &#8220;Kobune&#8221;? Você acredita que a bossa nova também tem a cara do Japão? </em></p>
<p><strong>FERNANDA</strong> -Essa era uma das canções que eu poderia ter gravado na edição brasileira do disco, mas como representantes da bossa nova já havia <em>Insensatez</em> e <em>Estrada do Sol</em>. Eu e Nelson escolhemos canções de todas as fases da Nara, não só essa pela qual ficou mais conhecida. Quando o disco ia sair no Japão, precisava ter uma faixa bônus, então pensamos em <em>O  Barquinho</em><em>, </em> porque é uma das mais famosas e não tinha uma versão em <em>nihongo</em>. A bossa nova ainda é muito querida em vários lugares do mundo e os japoneses talvez sejam um dos povos que mais gostam desse tipo de música. Acho que combina sim.</p>
<p><em><strong>MEMAI</strong> &#8211; Por que você decidiu lançar um EP** e não um CD do Pato Fu com a banda japonesa de Maki Nomiya ? </em></p>
<p><strong>FERNANDA</strong> -O EP saiu em outubro, pela Taiyo Record em parceria com a Road &amp; Sky. É um projeto solo meu e da Maki, não é Pato Fu. O EP é um formato que dá certo comercialmente no Japão e para uma primeira experiência juntas, era mais viável em termos de produção, tempo e orçamento. Aqui no Brasil sairá apenas em formato digital.</p>
<p><em><strong>MEMAI</strong> -Maki Nomiya citou vocês como uma banda estilo shibuyakei, Poderia nos explicar esse estilo e como o Pato Fu se insere neste contexto? </em></p>
<p><strong>FERNANDA</strong> -Quando fizemos nosso arranjo de Made In Japan, usamos o máximo de elementos com referência ao Pizzicato Five que é considerada a banda mais famosa do estilo shibuyakei. Esse tipo de som se traduz numa banda que tem bastante estilo, é moderna, cuida muito da parte visual do trabalho (clipes, shows, capas) e transita entre um público um pouco mais sofisticado. Por algumas vezes o Pato Fu foi tido como uma banda assim, meio cultuada aqui no Brasil.</p>
<p><em><strong>MEMAI</strong> -De que forma você  consegue conciliar ser escritora, vocalista do Pato Fu e sua carreira solo? </em></p>
<p><strong>FERNANDA</strong> -Eu administro bem o meu tempo, sou uma pessoa muito disciplinada e tenho bom-humor no dia a dia. Isso ajuda bastante nessas multitarefas. Ainda tenho uma filha de 6 anos e gosto de cuidar da casa!</p>
<p><em><strong>MEMAI</strong> -Escrever um livro e crônicas para jornal foi um acaso ou a literatura sempre esteve presente em sua vida ? </em></p>
<p><strong>FERNANDA</strong> -Comecei a escrever por causa do convite de outras pessoas. Não pensava em ter uma coluna em dois jornais ou escrever textos pra diversas publicações do Brasil. Foi tudo por acaso. O livro é uma compilação dos textos mais significativos entre 2005/2007. Já tenho o dobro deles agora. Sempre fui mais leitora do que escritora. E sinceramente, ainda continuo assim. Essa minha outra atividade tem só 4, 5 anos. Na música me sinto mais à vontade porque já são 17 anos de carreira.</p>
<p><em><strong>MEMAI</strong> &#8211; Em seu livro você aborda com ternura as relações com seus avós japoneses. Como eles influenciaram sua formação como artista ? </em></p>
<p><strong>FERNANDA</strong> -Acho que me influenciaram mais como pessoa mesmo e já que a música vem dessa nossa bagagem de sensibilidade, atenção, observação, recriação e rearranjo de elementos diversos, a presença da minha família, não só  do lado oriental, mas também a da minha mãe &#8211; que é de origem portuguesa &#8211; me faz ser o que sou.</p>
<p><em><strong>MEMAI</strong> -Sabemos que você tem frequentado nihongakko, como surgiu essa necessidade? </em></p>
<p><strong>FERNANDA</strong> -Frequentei a escola no primeiro ano e depois fiquei tomando aulas particulares. Tenho até  estado afastada das aulas desde o fim de maio porque minha agenda ficou bem complexa. Não gosto de ir à aula, sem estudar, é preciso fazer direitinho as lições. Então combinei com minha <em>sensei</em> que assim que tivesse mais disponibilidade, voltaria à ela. Daí eu faço uma revisão sozinha por uma semana e volto ao ritmo normal. Tive vontade de aprender o idioma quando estive pela primeira vez no Japão. Gostei demais do país e das pessoas e achei que sendo neta de japoneses tinha a obrigação de conhecer mais sobre a cultura. Nada como estudar a língua pra conhecer melhor um povo.</p>
<p><em><strong>MEMAI</strong> &#8211; Você se considera uma nikkei? Como isso influencia no seu modo de vida? </em></p>
<p><strong>FERNANDA</strong> -Sim, desde o uso do meu nome verdadeiro profissionalmente à admiração que tenho por minhas origens nipônicas. Gosto muito de pensar que tenho algumas das qualidades de um <em>nikkei</em> como a responsabilidade e dedicação verdadeira ao trabalho e à família. Agora os defeitos devo ter também, mas não precisamos listá-los, não é? Tento ser sempre uma pessoa correta e ao mesmo tempo me sinto feliz com tudo o que vou realizando aos poucos.</p>
<p><em><strong>Discografia Pato FU</strong></em></p>
<p><strong><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Rotomusic_de_Liquidificapum" target="_blank">Rotomusic de Liquidificapum</a></strong><strong> </strong>(<a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/1993" target="_blank">1993</a>)<strong> </strong></p>
<p><strong><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Gol_de_Quem%3F" target="_blank">Gol de Quem?</a></strong><strong> (</strong><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/1994" target="_blank">1995</a>) <strong> </strong></p>
<p><strong><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Tem_Mas_Acabou" target="_blank">Tem Mas Acabou</a></strong><strong> </strong>(<a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/1996" target="_blank">1996</a>)</p>
<p><strong><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Televis%C3%A3o_de_Cachorro" target="_blank">Televisão de Cachorro</a></strong><strong> </strong>(<a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/1998" target="_blank">1998</a>)</p>
<p><strong><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Isopor_%28%C3%A1lbum_de_Pato_Fu%29" target="_blank">Isopor</a></strong><strong> </strong>(<a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/1999" target="_blank">1999</a>)</p>
<p><strong><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Ru%C3%ADdo_Rosa_%28%C3%A1lbum%29" target="_blank">Ruído Rosa</a></strong><strong> (<a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/2001" target="_blank">2001</a></strong><strong>) </strong></p>
<p><strong>MTV Ao Vivo No Museu da Pampulha </strong>(2002)<strong> </strong></p>
<p><strong><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Toda_Cura_Para_Todo_Mal" target="_blank">Toda Cura Para Todo Mal</a></strong><strong> </strong>(<a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/2005" target="_blank">2005</a>)</p>
<p><strong><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Daqui_Pro_Futuro" target="_blank">Daqui Pro Futuro</a></strong><strong> </strong>(<a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/2007" target="_blank">2007</a>)<strong> </strong></p>
<p><strong><br />
<em>Discografia Fernanda Takai</em></strong></p>
<p><strong>Onde Brilhem os olhos seus</strong> (2007)</p>
<p><strong>Luz Negra: ao Vivo </strong>( 2009 )</p>
<p>Livro</p>
<p><strong>Nunca Subestime uma Mulherzinha</strong>, Panda Books, 2008</p>
<p>* Pizzicato Five – banda pop japonesa ativa de 1985 a 2001. Propagou o estilo shibuya-kei. Maki Nomiya entrou na banda em 1991.</p>
<p>** EP: formato digital que comporta entre 4 e 8 faixas de gravação musicail, com duração média de 15 a 35 minutos.</p>
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		<title>A TRANSFIGURAÇÃO DO TANKA</title>
		<link>http://www.jornalmemai.com.br/2009/11/a-transfiguracao-do-tanka/</link>
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		<pubDate>Sun, 01 Nov 2009 19:02:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marilia Kubota</dc:creator>
				<category><![CDATA[Fu (Entrevista)]]></category>

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		<description><![CDATA[O Jornal Memai abre a edição inaugural com Wilson Bueno, autor de "Pequeno Tratado de Brinquedos" e "Pincel de Kyoto", dois singelos livros de tanka - a forma poética japonesa de 31 síbalas, que consagrou poetas japoneses modernos como Takuboku Ishikawa.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Wilson Bueno é autor de títulos literários em várias vertentes e gêneros. Sua obra de maior impacto é a novela <em>Mar Paraguayo </em>(editora Iluminuras, São Paulo), publicada na Argentina, Chile, México, Cuba, Estados Unidos, e objeto de teses e seminários, por sua inventiva construção ( portunhol e guarani). É também autor de mais 11 livros de ficção, entre eles “A Copista de Kafka”, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e Prêmio APCA de Literatura – Associação Paulista dos Críticos de Arte em 2008. Criador e editor, por oito anos, do premiado jornal <em>Nicolau</em> (1987-1994), considerado um dos mais importantes tablóides culturais brasileiros. É colaborador regular do Trópico (<a href="http://www.uol.com.br/tropico" target="_blank">www.uol.com.br/tropico</a>), site de arte e cultura do UOL, e do suplemento “Cultura” do jornal <em>O Estado de São Paulo</em>.</p>
<p><em><strong>MEMAI</strong> &#8211; Quando você foi editor do jornal de cultura “Nicolau”, aliás, criado por você, desde o nome, entre os anos 80 e 90, em pelo menos 1/3 das edições estavam pautadas matérias sobre cultura japonesa. Isto se devia a sua paixão pela cultura japonesa ou refletia uma tendência da época, de cultuar o zen e as artes clássicas japonesas?</em></p>
<p><strong>WILSON BUENO</strong> &#8211; Desde cedo a minha paixão pela cultura japonesa foi muito marcada e marcante. Não só  para mim, mas também para grande parte da geração a que pertenço, herdeira dos beatniks. Nas viagens lisérgicas do meu tempo buscávamos o zen, aquela coisa “essencial” das artes clássicas do Japão.  Gostávamos de interpretar o mundo a partir do aparente nonsense dos koans búdicos&#8230; Era, digamos, a nossa filosofia, em oposição ao “catolicismo” feudal do Ocidente, com tudo o que vinha nele de moralismos congelados, estanques. Eu, em particular, sou um lewiscarrolliano por excelência, um discípulo aplicado igualmente de Edward Lear, hoje aliás tão meticulosamente estudado no Brasil por Dirce Waltrick do Amarante. E não poderia ser de outro modo num jornal que tinha à frente das diversas equipes que por ele passaram, este locutor que vos fala, não é mesmo?</p>
<p><em><strong>MEMAI</strong> &#8211; Quando você ouviu falar de poesia japonesa pela primeira vez ? Teve algum envolvimento com a comunidade nipo-brasileira no interior do Paraná ? Qual a sua primeira imagem dos nihonjin (japoneses) ?</em></p>
<p><strong>BUENO</strong> -  Os nihonjin, por outras vias, estão presentes desde sempre em minha vida. No sertão profundo, onde nasci, na aldeia Água do Salto, a 50 kms de Jaguapitã, plantavam café e algodão. Em Curitiba, para onde vim com 7 anos, estudei com muitos deles – do antigo primário aos igualmente antigos ginásio e científico. Admirava-os porque eram sobretudo “ordeiros”, me identificava com aquela dedicação deles aos estudos.  Como era meu vício ser o primeiro aluno da classe, era muito mais fácil para mim estreitar laços de amizade com os meninos japoneses do que com os demais&#8230; E depois tinha que, sobretudo em Curitiba, éramos todos migrantes – fossem os japoneses ou os “sertanejos” do Norte pioneiro (<em>norte do estado do Paraná</em>), os filhos de polacos ou de ucranianos… Ah, e também os descendentes dos árabes&#8230; Quando das primeiras “luzes” literárias, logo de cara as coisas do Japão me chamaram a atenção, mesmo porque, como já disse, a minha geração as cultuava através do haicai, do tanka, da ikebana ou das lutas marciais&#8230; Do kendo ao aikido&#8230;</p>
<p><em><strong>MEMAI</strong>-  O haiku, no Brasil chamado haicai, se tornou uma forma poética popular. Você fugiu desta forma, preferindo criar poemas em tankas.  Por quê ?</em></p>
<p><strong>BUENO</strong> &#8211; Porque sempre me moveu e me move o desejo de fazer diferente, o que até pode sugerir uma coisa pernóstica, mas é que, já repeti isso em várias ocasiões, não sei ser de outro modo.  Não manejo, não consigo manejar aquilo que todo mundo, em dado momento, está fazendo. Aí, como conciliar a paixão pelos versos japoneses senão pela via do tanka, embora eu seja autor de dezenas de haicais? E depois tem que me impus um desafio: o tanka, sabemos, carrega consigo o chamado “olho” do haicai e ainda pede uma “conclusão” em dois versos finais. Sempre, claro, na rigorosa métrica que inventamos para ele, para transfigurá-lo, creio. Uma “matemática” que me seduz, – 5/7/5 ( o haicai!) e 7/7 a dita “conclusão”, uma sutil “moral” da história&#8230; Como em “Magrura” (<em>Pequeno Tratado de Brinquedos</em>): “minha meia-irmã/ chegou de Piracicaba/ ainda mais magra/ corremos em seu socorro/ de magra voou pro morro”.  A métrica, inventada aqui, também é um exercício de humildade – você se vê obrigado a desprezar o que julga um achado precioso porque este tal de “precioso” o poema só pode acolhê-lo se em rigorosas e calculadas sílabas poéticas&#8230; Temos que recusar, jogar literalmente no lixo o que consideramos grandes “insights”, porque não cabem no metro do poema, você me entende?</p>
<p><em><strong>MEMAI</strong> &#8211; No “Pequeno Tratado&#8230;” há referências a Bashô, Issa, Buda. Quais são seus poetas japoneses preferidos ? E os poetas que fazem tanka ? </em></p>
<p><strong>BUENO</strong> &#8211; Kobaiashi Issa me parece insuperável. Só pra lembrar, de cor, uma autêntica jóia, eterna: “Ao Fuji sobes/ Pequeno caracol/ – Mas sobes”.  Acho a nossa Helena Kolody (1912 &#8211; 2004 ) , a minha mais decisiva influência e estímulo para ir ao tanka como quem vai com gula a um pote de  mel. A saudosa Helena tem tankas lindíssimos, de uma delicadeza que era dela sua maior marca. E, claro, alguns clássicos, só encontráveis infelizmente em inglês, ou espanhol, reunidos numa antologia chamada Kojiki e que conta as origens do Japão e que, curiosamente foi escrito em chinês, me ensinaram muito&#8230; Aprendi, aprendo e creio que continuarei aprendendo com a leitura dos fragmentos encontráveis por aí desse livro fantástico.</p>
<p><em><strong>MEMAI</strong> &#8211; Alguns poetas que moravam em Curitiba, como Helena Kolody, Paulo Leminski e Alice Ruiz cultivaram o haicai como forma poética. Alguma vez você chegou a conversar sobre poesia e arte japonesa com eles ? E com Claudio Seto, que morreu recentemente e para quem você escreveu uma crônica, tinha conversas sobre poesia e filosofia ? </em></p>
<p><strong>BUENO</strong> &#8211; Sim, não só sobre o haicai, mas também sobre as inúmeras manifestações que fazem do Japão uma coisa singularíssima na história da arte humana&#8230; Das artes da guerra à delicadeza da ikebana; do haicai à renga; do tanka ao zen. Sabendo, claro, que no Oriente todos estas coisas se misturam e se transfundem senão transcendem&#8230; Claudio Seto, meu grande amigo, ilustrador de inúmeros textos meus, não falava&#8230; Só criava em seu silêncio búdico&#8230; Era um ser de uma beleza incalculável, mesmo em seus monossílabos&#8230; Monossílabos que sorriam&#8230;</p>
<p><em><strong>MEMAI</strong> &#8211; No Japão o haiku é uma forma poética não-subjetiva, que procura eliminar o “eu”, como num exercício zen. O poema clássico não tem rima nem titulo. Quando esta forma poética é trazida para o Ocidente, estas regras são subvertidas: aparecem titulo, rimas e subjetividade. Seria uma adaptação da poesia japonesa no Brasil, um país de tradição trovadoresca? </em></p>
<p><strong>BUENO</strong> -  Sem dúvida, a adaptação da poesia japonesa ao Brasil é justamente o que, me parece, enriquece, ainda mais uma tradição clássica. Os brasileiros somos useiros e vezeiros em reinventar as artes alheias&#8230; Veja com o futebol, o rude esporte bretão, o que fizemos&#8230; Virou uma coisa transcendente o que antes era só um esporte tosco&#8230; Não digo que o poema clássico, sem rima nem título, como é praticado pelos orientais, seja tosco, pelo contrário. Chamo atenção é para essa capacidade brasileira de transfigurar as coisas&#8230; Há um tanka em <em>Pequeno Tratado</em><em> de Brinquedos</em> em que tento focar essa dissolução do “eu”&#8230; Chama-se justamente “Anônimo”. Se você me permite, lembro de cor: “eu e a minha mestra/ saímos caçar cepilhos/ só colhemos grilo/ tarde voltamos com fome/ jantamos os nossos nomes”.</p>
<p><em><strong>MEMAI</strong> &#8211; Alguns dos conceitos-base da arte japonesa são a harmonia da forma e a síntese na linguagem. Quando você compõe seus tankas, pensa em alguma regra ou conceito ? </em></p>
<p><strong>BUENO</strong> – Não, só penso em fazer o melhor e honrar, de alguma forma, a grande tradição, mesmo que disturbando-a, ou por isso mesmo&#8230;</p>
<p><em><strong>MEMAI</strong> &#8211; Que tipo de repercussão tiveram seus livros de tankas ? </em></p>
<p><strong>BUENO</strong> &#8211; Enorme.  Há leitores apaixonados que me passam e-mails, absolutamente encantados com os meus tankas. Em Mato Grosso do Sul, alguns formandos, do maravilhoso curso de Letras que tem lá a UFMS, estão realizando teses de mestrado exclusivamente em torno dos meus únicos livros de tankas – o <em>Pequeno Tratado</em>&#8230; e <em>Pincel de Kyoto</em>&#8230; Justamente descendentes de japoneses, o que é interessantíssimo e me honra muito, acredite. E o  <em>Pequeno Tratado&#8230;</em> já está em segunda edição, o que é raro para um livro de poesia, no Brasil, ainda mais de tankas, você não acha?</p>
<p><em><strong>MEMAI</strong> &#8211; Depois de  “Pequeno Tratado de Brinquedos” e “Pincel de Kyoto”,  você pretende lançar mais algum livro de tankas ? É uma forma poética na qual você compõe com regularidade ? </em></p>
<p><strong>BUENO</strong> &#8211; Sempre digo, e repito, que estes serão meus únicos livros de poesia, estrito senso. Sou basicamente um ficcionista, com inúmeros títulos nessa área. Embora tenha, inéditas, e guardadas a sete chaves, mais duas reuniões de poesia – o “13” ( sonetos eróticos, que pretendo sejam póstumos&#8230;) e o “35. Poemas de Amor”,  barroquíssimos, que sinceramente não sei quando publicarei&#8230; Cinco desses últimos foram publicados pelo site de arte e cultura do UOL, o Trópico ( <a href="http://www.uol.com.br/tropico" target="_blank">www.uol.com.br/tropico</a> ). Tenho também, e inédito, um livro com mais de 50 tankas chamado “Casa do Poeta”.  Hesito muito em publicar poesia. Quero crer que sou um ficcionista, e não mais que isso&#8230;</p>
<p><em><strong>MEMAI</strong> – E por falar em ficção, que  escritores japoneses contemporâneos você lê? </em></p>
<p>BUENO &#8211; Sou apaixonado pela literatura moderna do Japão. Tenho um pequeno ensaio sobre Yasunari Kawabata, um dos meus ícones, e sempre retorno a este autêntico titã das letras contemporâneas que é Yukio Mishima&#8230; A prosa japonesa contemporânea é de um vigor extraordinário&#8230; Quem quiser escrever ficção, em qualquer língua, tem que conhecer esses e outros autores, penso eu&#8230;</p>
<p><a href="http://animexisde.com.br/memai/wp-content/uploads/2009/11/bueno01_p.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-22" title="bueno01_p" src="http://animexisde.com.br/memai/wp-content/uploads/2009/11/bueno01_p-199x300.jpg" alt="bueno01_p" width="199" height="300" /></a></p>
<p>TANKAS</p>
<p>I</p>
<p>casa do poeta</p>
<p>folhas brancas no escritório</p>
<p>chá das cinco horas</p>
<p>da janela o cinamomo</p>
<p>conta estórias passam os anos</p>
<p>II</p>
<p>casa do poeta</p>
<p>silva a serra motriz</p>
<p>– uma nova mesa!</p>
<p>panelas, pratos de estanho</p>
<p>no retrato, o avô piscando</p>
<p>III</p>
<p>casa do poeta</p>
<p>de vez em quando uma lágrima</p>
<p>chove na vidraça</p>
<p>no céu o céu cor de cinza</p>
<p>saudades nunca não passam</p>
<p>IV</p>
<p>casa do poeta</p>
<p>desenho de passarinho</p>
<p>de Rogério Dias</p>
<p>três deles se escondem álacres</p>
<p>atrás de um bico-de-lacre!</p>
<p>V</p>
<p>casa do poeta</p>
<p>num canto a teia de aranha</p>
<p>fia ouro ao sol</p>
<p>o musical meio-dia</p>
<p>réstia de luz no varal</p>
<p><strong>Do livro <span style="text-decoration: underline;">Casa do Poeta (inédito)</span></strong></p>
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