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	<title>Memai &#124; Jornal de Letras e Artes Japonesas &#187; Hosomi (Ensaio)</title>
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	<description>Memai &#124; Jornal de Letras e Artes Japonesas</description>
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		<title>INTIMIDADE DENTRO DE UMA COZINHA</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Dec 2009 22:45:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jornal Memai</dc:creator>
				<category><![CDATA[Hosomi (Ensaio)]]></category>
		<category><![CDATA[banana yoshimoto]]></category>
		<category><![CDATA[kitchen]]></category>
		<category><![CDATA[Takaaki Yoshimoto]]></category>

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		<description><![CDATA[Kitchen apresenta a visão de um Japão moderno num relato que coloca personagens insólitos em dramas cotidianos, narrados com sobriedade e sutileza]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>O artigo a seguir, originalmente publicado no Jornal Nippo-brasil, em agosto de 2008</em>,<em> é de </em><strong><em>Ignácio Dotto Neto</em></strong><em>, mestre em Teoria da Literatura da Unicamp, pesquisador e tradutor.</em></p>
<p>Em novembro de 1987, um livro com título em inglês escrito por uma garçonete de 24 anos, filha de um intelectual de esquerda vence o 6<sup>o</sup> Concurso Kaien de novos escritores no Japão.  Em janeiro de 1988, esse mesmo livro vence o 16<sup>o</sup> Concurso Izumi Kyoka. Em 1997, o cineasta Yim Ho, de Hong Kong, adapta a obra para o cinema e a uma versão para a televisão, feita pela TV japonesa. Estamos falando de <strong>Kitchen</strong>, de Banana Yoshimoto, livro que já foi traduzido em mais de 20 idiomas desde seu lançamento.</p>
<p>Banana Yoshimoto é o pseudônimo literário de Mahoko Yoshimoto, filha de Takaaki Yoshimoto &#8211; um dos mais famosos intelectuais japoneses de esquerda da geração 1960 – e irmã da cartunista Haruno Yoiko.</p>
<p>Uma leitura apressada poderia resumir <strong>Kitchen</strong> como uma combinação leve de melodrama com mensagens de otimismo.Mas Kitchen é mais que isso. A começar pelo título, em inglês ao invés da palavra japonesa, daidokoro. É como uma placa que indica uma fronteira: a partir daqui, não espere um Japão tradicional, com cozinhas onde há sempre uma chaleira esquentando sobre um fogão a lenha e os utensílios são feitos de bambu. Um dos personagens é consumista de produtos eletro-eletrônicos,  outro odeia <em>tofu, </em>quando a personagem principal pousa na casa dos amigos, eles lhe oferecem o sofá para dormir, não o tradicional futon.</p>
<p>Mikage Sakurai é uma jovem universitária que perdeu os pais quando era muito pequena e foi criada pelos avós. A narrativa começa quando Mikage perde sua avó, a última de seus familiares, e vai morar na casa de Eriko Tanabe, uma viúva dona de um clube noturno e Yuichi, seu filho adolescente. Logo Mikage descobre que Eriko é na verdade o pai de Yuichi, que resolveu mudar de sexo quando faleceu a esposa para poder educar melhor o filho.</p>
<p>Toda a história é contata pela ótica de Mikage e é aí que está o encanto do livro. O que <strong>Kitchen</strong><em> </em>tem a apresentar ao leitor não é um enredo cheio de peripécias e surpresas ou mirabolantes reflexões metafísicas, é a maneira como Mikage observa o mundo e reflete sobre ele e sobre sua própria situação, seu “estar no mundo”. O olhar de Mikage é singelo, um pouco adolescente, mas em cuja singeleza e limpidez se refletem temas quotidianos e ao mesmo tempo profundamente humanos, singelamente humanos: a convivência com a morte, a perda e a solidão. A trajetória do personagem principal é uma sucessão de perdas. O filosofar de  Mikage-chan, embora sejam esboços de respostas a questões fulcrais da existência, não é um sistema retoricamente elaborado. É um modo de olhar para o mundo de um modo singelo. Entre uma perda e outra, mesmo nas cenas de <em>pathos </em>mais intenso<em>, </em>o a personagem nunca se perde em divagações ou nos sentimentos, mesmo angustiantes, ela sempre apresenta  descrições do céu, da paisagem. O tempo da personagem é o futuro, uma vez que o presente se apresenta como uma imensa solidão. Mas é um futuro no qual  se aposta por pureza, não por convicções heróicas ou idealismo apaixonado. A cena final, onde poderíamos ver um “happy end” melodramático é apresentada como uma possibilidade, remota ou não de um futuro que leva o indivíduo ao contato com o outro.</p>
<p>Mas por trás desse olhar singelo de uma personagem adolescente se encontram referências culturais de raízes mais profundas. A instituição família é   o tempo todo questionada ou mesmo desacreditada, os personagens são todos &#8216;deserdados&#8217; e sem laços familiares. Vale lembrar aqui das observações de Takaaki Yoshimoto em “A Comunidade ilusória” (<strong>Kyozo Gensoron</strong><em>) </em>feitas nos anos 1960 sobre família e nação.</p>
<p>Uma manhã, após beber seu suco de <em>grapefruit </em>Mikage Sakurai pensa consigo mesma:</p>
<blockquote><p><em>Guardo comigo uma sensação indefinível, que as palavras poderiam dissolver. Há tanto caminho pela frente. Talvez na sucessão das noites e das manhãs que virão, até este momento se transforme num sonho</em>.</p></blockquote>
<p>É evidente a citação, do início de Sendas de Oku (Oku no Hosomichi), de Matsuo Bashô:</p>
<blockquote><p><em>Os meses e os dias são viajantes da eternidade. O ano que se vai e o que vem também são viajantes. [...] Pensei nos  três mil ri de viagem que me aguardavam e meu coração se oprimiu. Enquanto via o caminho que talvez ia nos separar para sempre nesta existência que é como um sonho [...]</em></p></blockquote>
<p>Em outro momento de reflexão, Mikage estendida no sofá, pensa nas pessoas que perdeu e em seguida observa o céu:</p>
<blockquote><p><em>As pessoas verdadeiramente importantes emitem uma luz que aquece o coração de quem vive ao lado delas. [...] Talvez a luz de Eriko fosse de pequena grandeza. [...] No céu, na direção do ocidente, começavam a juntar-se nuvens escuras, levemente alaranjadas nas bordas pelo pôr-do-sol. Logo cairia a noite lenta e fria, penetrando fundo no coração.</em></p></blockquote>
<p>A referência aqui é uma canção infantil (Yuhi, <em>Makaka ka sora no kumo / Minna no kaomo makaka</em>) e a evocação desta canção apenas ressalta o sentimento de completa solidão da personagem. Ao contrário da canção que compara as nuvens avermelhadas do anoitecer ao rosto das pessoas, aqui há apenas a solidão junto à personagem.</p>
<p>No Brasil, <strong>Kitchen</strong><em> </em>é o único livro de Banana Yoshimoto publicado. A tradução foi feita não a partir do original japonês, mas da edição italiana.  Até a metade da história, os personagens sempre bebem “taças de chá”, só na segunda parte é que começam a usar xícaras. Isso não é mais um detalhe da  peculiaridade dos personagens. É a tradução apressada de um falso amigo: “tazza” em italiano é a palavra usada para designar xícara.</p>
<p><strong>Kitchen</strong> foi o único livro de Banana Yoshimoto publicado no Brasil pela Editora Nova Fronteira, em 1988, traduzido por Julieta Leite. Em Portugal foram publicados <strong>A Última Amante de Hachiko</strong>, <strong>Adeus, Tsugumi</strong>, <strong>Arco-Iris</strong> e <strong>Lua de Mel, </strong>todos pela Cavalo de Ferro.</p>
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