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	<title>Memai &#124; Jornal de Letras e Artes Japonesas &#187; catatau</title>
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	<description>Memai &#124; Jornal de Letras e Artes Japonesas</description>
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		<title>LITERATURA &#124; O Polaco Negro ZEN</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Dec 2009 21:26:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Célio Yano</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[catatau]]></category>
		<category><![CDATA[haikai]]></category>
		<category><![CDATA[paulo leminski]]></category>

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		<description><![CDATA[Distante do lugar-comum, Paulo Leminski uniu genialidade a influências de toda sorte e, vinte anos após sua morte, segue como um dos principais difusores do haicaísmo em terras brasileiras ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O escritor, poeta, tradutor, filósofo, publicitário e etcétera Paulo Leminski foi tudo, menos o óbvio. Fugiu das regras desde o início, quando, em 24 de agosto de 1944 veio ao mundo: apesar de nascer em Curitiba, deslanchou e teve seu trabalho reconhecido a partir da capital paranaense, numa época em que poucos nomes de fora do eixo Rio-São Paulo despontavam nacionalmente. Filho de pai polonês e mãe negra, foi um dos principais difusores brasileiros da hoje mais conhecida forma de poesia japonesa: o haicai.</p>
<p>Duas décadas após a morte, ainda é estudado e cultuado como o núcleo de um movimento cultural único que passou pelo país. Nasceu como Paulo Leminski Filho, filho de Paulo Leminski e Áurea Mendes Campos. Ainda criança, morou em Itapetininga, São Paulo, e em Itaiópolis, Santa Catarina, antes de retornar à capital das araucárias. Entre os 13 e os 14 anos viveu no mosteiro de São Bento, em São Paulo, onde estudou, entre uma aula de ensino religioso e outra, latim, francês e hebraico. E no mesmo reduto beneditino, por meio de D. João Mehlmann, teve os primeiros contatos com as chamadas “filosofias orientais”, segundo relata o jornalista e amigo Toninho Vaz, biógrafo do escritor.</p>
<p>Poliglota, estudava japonês na década de 1960 quando começou a se interessar pela poesia de Helena Kolody, que desde os anos 40 trabalhava com o haicai. Gostou da distinta forma de literatura  e dedicou-se aos estudos e sua produção, embora não tenha se tornado fluente no idioma japonês, como muitos acreditam até hoje. “Ele identificava alguns ideogramas, apenas”, afirma a poeta Alice Ruiz,  casada com Leminski durante 20 anos.</p>
<p>Aos 18 anos participou da Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, em Belo Horizonte, e conheceu os irmãos poetas Augusto e Haroldo de Campos e o professor Décio Pignatari, representantes do movimento concretista e que, de imediato, fascinaram-se pela precocidade do jovem curitibano. Dali, foi apenas um ano para Leminski publicar seus primeiros poemas na revista concretista Invenção. Até sua morte, foram 13 livros, de prosa, poesia, biografia e fotografia.</p>
<p>Chegou a cursar Direito na Universidade Federal do Paraná (UFPR), mas desistiu e direcionou sua formação para a área de Filosofia, curso que concluiu em 1965 pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Em 1968 casou com Alice Ruiz, com quem teve três filhos – Miguel Ângelo, Áurea e Estrela – antes de se separarem. Além de poeta e escritor, trabalhou como professor de história e redação em cursos pré-vestibulares, diretor de criação e redator em agências de publicidade, jornalista, crítico literário e tradutor. Fez até roteiros de histórias em quadrinhos para a extinta editora curitibana Grafipar.</p>
<p><strong>Samurai zen-budista</strong></p>
<p>Em abril de 1977, época em que escrevia para o Diário Popular, confirmava sua paixão pela cultura oriental ao publicar oito koans em uma edição especial do suplemento Anexo. O tema do caderno era ‘Zen e as artes marciais japonesas’. Seis anos mais tarde, lançou Matsuo Bashô, biografia do poeta japonês que codificou e estabeleceu a forma clássica do haicai.</p>
<p>Abra-se um parêntese. Eclético no sentido amplo da palavra, Leminski não se deixava influenciar apenas pelos japoneses. A prosa poética <em>Metamorfose</em>, por exemplo, surgiu a partir de seu interesse pelos mitos gregos. Como tradutor, verteu para a língua portuguesa obras, do francês, como <em>Supermacho</em>, de Alfred Jarry, do inglês, como <em>Pergunte ao Pó</em>, de John Fante, e <em>Um atrapalho no trabalho</em> de John Lennon, e até do latim, como <em>Satyricon</em>, de Petrônio.</p>
<p>Em 1985, com assessoria de Elza Taeko Doi e Darci Yasuko Kusano, traduziu <em>Sol e Aço </em>(‘Taiyo to Tetsu’), que Yukio Mishima escrevera em 1968. No ensaio, o japonês, que cometeria o harakiri em 1970, faz um tratado sobre o corpo e fala sobre a morte prematura. Ciente ou não de que o esgotamento precoce seria seu próprio destino, Leminski nunca deixava de se envolver pelas obras por que passava.</p>
<p>Que  motivos o levaram ao interesse pelo arquipélago do outro lado do mundo, ninguém sabe. Mas a ligação com o Japão do samurai zen-budista, como se autointitulava, não se restringia à literatura. “Tudo começou com o ingresso dele no judô, aos 22 anos”, conta Alice Ruiz, que lembra que culinária japonesa estava entre as preferências do ex-companheiro. E, de fato, até os últimos anos de sua vida, contam os amigos, orgulhou-se de ser faixa preta na arte marcial.</p>
<p>É na década de 1980 que surge a definição <em>samurai zen-budista</em>, que soma-se a outros epítetos, como <em>a besta dos pinheirais</em> e <em>cachorro louco</em>. Por Haroldo de Campos o denominava  <em>Rimbaud curitibano</em>, e o cineasta Júlio Bressane, <em>caipira cabotino</em>. Para Toninho Vaz foi o <em>bandido que sabia latim</em>.</p>
<p><strong>O Rio que Vai </strong></p>
<p>Letrista e músico foram outras atribuições que o poeta kamikaze cumpriu com habilidade, em parcerias que fez com Caetano Veloso, Moraes Moreira, Zeca Barreto, Carlos Careqa, Ivo Rodrigues, Arnaldo Antunes, entre outros. A mais ouvida canção é provável que tenha sido Promessas Demais, que era reproduzida diariamente na Rede Globo, na abertura da novela Paraíso, de 1982.</p>
<p>Alternativo ao extremo, teve por diversas vezes o nome ligado à cultura pop. Com Guilherme Arantes assinou a trilha sonora de Pirlimpimpim 2, programa infantil exibido na emissora de Roberto Marinho. Se entre os jovens de hoje poucos leram o Catatau, sua obra-prima lançada em 1975, é difícil encontrar alguém que desconheça a Pedreira Paulo Leminski, que desde 1990 acolhe espetáculos do clássico ao rock, do sertanejo ao religioso. E até as crianças devem se lembrar de ao menos um dos poemas do cachorro louco que eram lidas no Castelo Rá-Tim-Bum, da TV Cultura.</p>
<p><strong>Dor Elegante</strong></p>
<p>Personagem de uma vida tão ou mais interessante que a própria obra, deu um final típico de romance europeu do século 19 para sua biografia. Entusiasta do budismo apesar de polaco, era boêmio apesar de erudito, e desde cedo trilhou um caminho sem volta pelas vias do alcoolismo. O gatilho para a aventura derradeira foi a morte prematura do filho primogênito, Miguel Ângelo Leminski, que, em 1979, aos 10 anos de idade, deixou o pai órfão em consequência de um câncer.</p>
<p>Amigos tentavam de todas as formas demovê-lo das pás etílicas que cavavam seu túmulo, mas Leminski parecia ter a mais plena consciência de seu destino. Em seus últimos anos gostava de enaltecer a figura de Mishima, como forma de justificar atentados contra a própria vida, ainda que involuntários. Morreria em uma fria noite do inverno de 1989, vítima de cirrose hepática e possivelmente tranquilo como vivia. “Quanto à morte, eu sou nipônico. Eu nunca me confrontei com situações limites mas não tenho medo da morte”, disse certa vez.</p>
<p><a href="http://www.jornalmemai.com.br/wp-content/uploads/2009/12/leminski.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-113" title="leminski" src="http://www.jornalmemai.com.br/wp-content/uploads/2009/12/leminski-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></a>se<br />
nem<br />
for<br />
terra<br />
se<br />
trans<br />
for<br />
mar</p>
<p>____<br />
ameixas<br />
ame-as<br />
ou deixe-as</p>
<p>_____<br />
aqui jaz um grande poeta.<br />
nada deixou escrito.<br />
este silêncio, acredito,<br />
são suas obras completas.</p>
<p>_____<br />
Tudo dito,<br />
nada feito,<br />
fito e deito</p>
<p>_____<br />
Essa idéia<br />
ninguém me tira<br />
matéria é mentira</p>
<p>_____<br />
aqui<br />
nesta pedra<br />
alguém sentou<br />
olhando o mar<br />
O mar<br />
não parou<br />
para ser olhado<br />
foi mar<br />
pra tudo que é lado</p>
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